Prémio Daphne Caruana Galizia para investigação que expõe “frota-fantasma” usada ​​para transportar petróleo russo

Parte da equipa de jornalistas que venceu o Prémio Daphne Caruana Galicia 2025, na cerimónia realizada em Estrasburgo. Créditos: Parlamento Europeu

A investigação do consórcio de jornalismo holandês “Follow the Money”, em colaboração com 13 meios de comunicação social belgas, dinamarqueses, alemães, gregos, italianos, noruegueses e britânicos, e uma equipa com mais de 40 jornalistas, venceu a 5.ª edição do Prémio de Jornalismo Daphne Caruana Galizia 2025, por expor as redes financeiras que envolvem mais de 60 empresas e têm permitido à Rússia escapar às sanções impostas ao comércio de petróleo.

Mais de 400 jornalistas dos 27 Estados‑Membros da União Europeia candidataram as suas reportagens a este prémio em 2025, o mais importante na área da investigação jornalística a nível europeu. O júri selecionou 10 finalistas, anunciados em outubro, e só esta terça-feira, 21 de outubro, foi revelado o trabalho vencedor.

Roberta Metsola, presidente do Parlamento Europeu, familiares de Daphne Caruana Galicia e os jornalistas dos 27 países que compõem o júri independente deste prémio, participaram na cerimónia de entrega, realizada em Estrasburgo.

“O Prémio Daphne Caruana Galizia atesta a ligação indissociável entre uma imprensa livre, a democracia e a paz. Numa altura em que os regimes autoritários tentam silenciar a verdade e distorcer a realidade, a Europa está unida em torno dos jornalistas que expõem a corrupção e todos aqueles que se recusam a ser silenciados”, disse Metsola.

A investigação da “Follow the Money” tem vindo a revelar como armadores europeus ganharam mais de 6 mil milhões de euros com a venda de 230 navios-tanque decrépitos a uma “frota-fantasma” que tem estado a ser usada ​​para transportar petróleo russo, contornar as sanções europeias e financiar a guerra da Rússia na Ucrânia.

É um trabalho de largos meses, que combina jornalismo de investigação tradicional com análise de dados e localização por satélite, a descrição de estruturas de propriedade empresarial complexas, análises das rotas do transporte marítimo e também o custo humano deste comércio, através de entrevistas com membros das tripulações, que trabalham em condições perigosas. Estes navios funcionam agora sob estruturas de propriedade opacas, muitas vezes sem um seguro ambiental adequado, representando também um risco ecológico significativo.

“The Shadow Fleet Secrets”, ©Follow the Money

A investigação expõe uma rede complexa que tem permitido à Rússia contornar as sanções impostas ao comércio do seu petróleo, onde se incluem 8 empresas que operam dentro das fronteiras europeias e, incrivelmente, cerca de 20 empresas com sede na Ucrânia.

Os parceiros editoriais desta investigação foram: Follow the Money (Países Baixos), De Tijd (Bélgica), Süddeutsche Zeitung (Alemanha), WDR (Alemanha), NDR (Alemanha), The Times (Reino Unido), SourceMaterial (Reino Unido), IRPIMedia (Itália), OCCRP, NRK (Noruega), Danwatch (Dinamarca), Solomon (Grécia), Inside Story (Grécia), Dialogue Earth.

Vencedores das anteriores edições

  • 2021 – «Projeto Pegasus», coordenado por Forbidden Stories
  • 2022 – Documentário intitulado «A República Centro-Africana sob a influência da Rússia» de Clément Di Roma e Carol Valade (ARTE, France24 e Le Monde)
  • 2023 – Investigação conjunta sobre o naufrágio de um barco que transportava migrantes ao largo de Pylos (Solomon, em colaboração com Forensis, StrgF/ARD e The Guardian)
  • 2024 – Investigação sobre o desaparecimento de crianças migrantes não acompanhadas (Lost in Europe)

Quem foi Daphne Caruana Galizia?

Daphne Caruana Galizia foi uma jornalista maltesa que se dedicou a investigar casos de corrupção, branqueamento de capitais, criminalidade organizada e as ligações do governo de Malta aos “Panama Papers”. Depois de vários episódios de assédio e ameaças, foi assassinada a 16 de outubro de 2017, quando entrou no seu carro, armadilhado com uma bomba. A indignação e os protestos do povo maltês acabaram por levar à demissão do então primeiro-ministro, Joseph Muscat.