O Clube de Jornalistas iniciou um ciclo de conversas mensais entre profissionais da área e o primeiro encontro realizou-se a 21 de janeiro, prestando homenagem a José Carlos Vasconcelos, figura de referência do jornalismo português.
A conversa contou também com a participação de Pedro Coelho, que presidiu à Comissão Organizadora do 5.º Congresso, e de Tatiana Felício, vencedora do último Prémio Gazeta Revelação. Os três convidados refletiram sobre os momentos determinantes das respetivas carreiras e sobre o estado atual do jornalismo, tanto na imprensa escrita como na rádio e televisão.
A iniciativa, também em podcast, visa “premiar os melhores, cruzar gerações, aprender uns com os outros, pensar em conjunto, conviver”, explicou Maria Flor Pedroso, presidente do Clube de Jornalistas, que moderou esta conversa, frisando que o objetivo é refletir “não sobre o jornalismo do passado, mas percebermos o que é que estamos a fazer hoje e o que é que temos que fazer no futuro”.
José Carlos Vasconcelos: “A ideia de assistir, ver e contar está muito na base do jornalismo”
Com 85 anos e uma carreira multifacetada, José Carlos Vasconcelos recordou o momento em que decidiu ser jornalista: “A primeira ideia que tenho de querer ser jornalista é na Póvoa. Foi a ver passar a Volta a Portugal em bicicleta… achei que devia ser formidável uma pessoa andar ali com os tipos atrás e depois contar aos outros. A ideia de assistir, ver e contar, é óbvio que eu acho que está muito também na base do jornalismo”.
Sobre o início da carreira, partilhou: “Escrevi da Póvoa cinco reportagens para o Diário de Lisboa. Mandei logo cinco sobre uma trineira. E com grande espanto meu, eu nem conhecia ninguém de Lisboa. O Diário de Lisboa publicou as cinco reportagens e ainda eu era estudante”.
Vasconcelos destacou ainda o papel da censura e da imprensa regional na sua formação: “Em relação à censura, é um meu pequeno título de glória. A Via Latina foi apreendida, proibida e só voltou a sair depois do 25 de abril”.
Sobre o estado atual da profissão, foi crítico: “Uma das coisas para mim incríveis que foi dando cabo do jornalismo é essa falta de sentido da notícia. No jornalismo a primeira coisa de facto é notícias e começou toda a gente a querer dar opiniões. Hoje acho que ninguém aguenta já esta multidão de comentadores”.
E deixou um alerta: “Os jornalistas já foram uma classe respeitada, às vezes temida, mas respeitada de certa forma e hoje está descredibilizada”.
Pedro Coelho: “O repórter forma-se a saber observar”
O jornalista da SIC Pedro Coelho partilhou como a infância numa loja familiar em Montemor-o-Novo moldou a sua sensibilidade: “Eu creio que me formei como repórter a observar aquelas lógicas de ação… eu acho que o repórter se forma a saber observar. Eu estava calado, em silêncio a observar aquela realidade, mas aquela realidade foi-me marcando, foi fazendo de mim aquilo que eu sou hoje. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso”.
Sobre o percurso académico, recordou: “O curso de comunicação social tinha aberto em 1979. Eu fui para a faculdade em 1984 e contra a vontade do meu pai, fui tirar comunicação social. Ele perguntava-me: ‘Mas vais tirar comunicação social para ser o quê? Para fazer o quê?’ E eu dizia-lhe: ‘Eu quero ser jornalista’”.
Coelho também refletiu sobre a evolução do jornalismo televisivo: “Estamos a transformar a televisão, o lugar da notícia, no lugar de outra coisa qualquer que não é seguramente da notícia… as televisões banalizaram os diretos e enchem de coisas que não são relevantes do ponto de vista informativo”.
Sobre a pressão das audiências, foi direto: “As audiências transformaram-se num único critério editorial, não tem nada uma coisa a ver com a outra. São as audiências que os seguram ou não. Nós andamos a jogar com as audiências o tempo todo e isto entra na nossa cabeça de uma maneira que acaba por nos contaminar”.
E sobre a formação dos jovens jornalistas: “Os jovens de agora não conseguem lidar com o fracasso. Têm muita dificuldade em lidar com o fracasso. Quando nós não sabemos ultrapassar o constrangimento provocado pelo erro, nós não evoluímos, estagnamos”.
Tatiana Felício: “A rádio é mais sóbria e isto é prazeroso”
Representando a nova geração, Tatiana Felício, jornalista da Antena 1 e prémio Revelação na 40ª edição dos Gazeta, contou como a paixão pelo jornalismo nasceu da observação do quotidiano: “O jornalismo andava aqui um bocadinho, esta ideia de contar e de querer contar as histórias que ia ouvindo”.
Felício destacou a diferença entre rádio e televisão: “A rádio é mais sóbria nesse sentido e isto é prazeroso, a televisão… perde-se um pouco o gosto pela profissão, porque é esta necessidade do encher”.
Sobre os desafios dos jovens jornalistas, foi clara: “A profissão está muito difícil para os jovens… somos presos por ter cão e por não ter. Se vamos contra aquilo que um editor nos pede, ficamos a sentir-nos mal… se isto não me faz sentido, vou tentar debater, mas não é fácil”.
E sobre a precariedade: “O que é um contrato de recibos verdes que é muito bonito durante um ano, mas depois ao fim de dois já custa, ao fim de três já é mais difícil. E depois o tempo não é reconhecido também. Isto faz-me muitas vezes pensar, é muito bom nós ganharmos prémios, sermos reconhecidos, mas no dia-a-dia esse reconhecimento não existe, porque em termos de segurança na profissão, nós não a temos”.
Reflexão sobre o futuro
O debate abordou ainda a credibilidade da profissão, o controlo editorial e a precariedade laboral. José Carlos Vasconcelos alertou: “Eu nunca aceitei separar o que é o cidadão do jornalista. O jornalismo, para mim, é responsabilidade social, sobretudo. E um dos grandes males do jornalismo – não digo agora dos novos, até de gerações anteriores –, é que o poder dos jornalistas sobe à cabeça”.
O encontro terminou com o compromisso de continuar a promover o diálogo entre gerações e a reflexão sobre o futuro do jornalismo, com a próxima conversa já agendada para 25 de fevereiro, para homenagear Eugénio Alves, ex-presidente do Clube de Jornalistas e autor da primeira manchete sobre o 25 de Abril.
Próximas Conversas de Jornalistas confirmadas:
- 25 de fevereiro, às 18h00 — Eugénio Alves
- 25 de março, às 18h00 — Fernanda Mestrinho
- 22 de abril, às 18h00 — Cesário Borga