A Associação de Jornalistas Parlamentares manifesta “preocupação” face ao episódio da intervenção dos serviços de segurança da Assembleia da República junto do jornalista Tomás Guerreiro, da revista Sábado, “quando este se encontrava em plenas funções, devidamente credenciado e em local autorizado”, e já solicitou esclarecimentos junto dos gabinetes do Presidente e da Secretaria Geral do Parlamento.
O jornalista da revista Sábado tinha passado a manhã na Assembleia da República a tentar questionar deputados do PSD sobre a sua intenção de voto na segunda volta das Presidenciais quando Hugo Soares, presidente do grupo parlamentar social-democrata, saiu do seu gabinete, entrou no elevador e virou-se para o repórter: “Já disse aos meus deputados para nenhum deles falar consigo.”
Pouco depois, Tomás Guerreiro foi abordado por três agentes de segurança e “instado” a parar com as perguntas. O caso deu-se no passado dia 20 de janeiro e foi revelado na edição da revista hoje publicada. Em resposta à revista Sábado, a secretária-geral do Parlamento diz que a intervenção das autoridades policiais se deveu a uma queixa (cuja origem não identifica) por um “comportamento considerado suspeito”.
Segundo a revista, “a primeira abordagem, pelas 17h30, foi feita por dois elementos que se identificaram como ‘agentes do serviço de segurança'” da Assembleia da República. “Os dois agentes solicitaram a identificação do jornalista, que foi concretizada oralmente e pela exibição do crachá de imprensa que foi dado na portaria da AR contra a entrega de carteira profissional de jornalista”.
Apesar da identificação, “os dois seguranças deram ordem de retenção ao jornalista até chegada de um ‘superior’, que chegou pouco depois e se identificou como ‘tenente Lopes'”, explica a Sábado. Este agente “informou o jornalista que ‘houve deputados que se queixaram’ de perguntas feitas pelo mesmo, e que tinham ‘ficado incomodados’. Perguntado que deputados tinham feito essa queixa, respondeu: ‘Não podemos dizer’.”
A Sábado deduziu por esta declaração que a queixa teria sido apresentada pelo PSD, pois só estavam a ser abordados deputados da sua bancada.
Em seguida, o tenente Lopes informou o jornalista da Sábado que “não podia continuar a fazer perguntas a deputados”, e que teria de se retirar.
Anabela Cabral Ferreira, secretária-geral da Assembleia da República, explicou à Sábado que o Parlamento “é um espaço com regras próprias de circulação e permanência, destinadas a garantir a segurança e o normal funcionamento dos trabalhos parlamentares” e que “existem espaços específicos para o trabalho dos jornalistas”.
Depois, entrando no caso em concreto, referiu: “Na sequência de uma comunicação interna sobre um comportamento considerado suspeito, os serviços de segurança atuaram no cumprimento das suas competências legais e regulamentares. Embora se reconheça que a abordagem possa ter sido percecionada como inibidora, a atuação visou exclusivamente a salvaguarda das pessoas, dos serviços e do património.”
Não foi esclarecido que “pessoas, serviços e património” estiveram em perigo e, numa segunda ronda de perguntas, Anabela Cabral Ferreira também não quis responder quem fez a “comunicação interna”, qual o destinatário e qual o “comportamento considerado suspeito”.
Hugo Soares, presidente do grupo parlamentar do PSD, garantiu à Sábado desconhecer quem fez a queixa e não ter nenhuma responsabilidade na atuação da equipa de segurança do Parlamento.
A Sábado indica ainda que o presidente da Assembleia da República, Aguiar Branco (eleito pelo PSD), “não respondeu ao pedido de esclarecimento” sobre o ocorrido.
A Associação de Jornalistas Parlamentares (AJPAR) manifesta preocupação face ao episódio da intervenção dos serviços de segurança da Assembleia da República junto do jornalista Tomás Guerreiro, da revista Sábado, quando este se encontrava em plenas funções, devidamente credenciado e em local autorizado. A AJPAR adianta que já solicitou esclarecimentos junto dos gabinetes do Presidente e da Secretaria Geral do Parlamento.
A AJPAR recorda que desde os anos 90 do século passado, quando no caso conhecido como a “Guerra dos Corredores” existiu uma tentativa de limitar o acesso e permanência dos jornalistas nos corredores dos grupos parlamentares, ficou estabelecido que os jornalistas podem circular nesses espaços, o que tem acontecido com toda a tranquilidade e respeito pelas regras de boa convivência.
No caso em apreço, o jornalista estava identificado com a credencial, sendo incompreensíveis as razões que terão levado à intervenção dos serviços de segurança, e ainda mais inaceitáveis as considerações sobre a necessidade de “autorização” para realizar trabalho jornalístico.