Início Conversas de Jornalistas Homenagem a Eugénio Alves na 2.ª edição das “Conversas de Jornalistas”

Homenagem a Eugénio Alves na 2.ª edição das “Conversas de Jornalistas”

Foto: Inácio Ludgero

Eugénio Alves, jornalista profissional há 55 anos, tem hoje 80 anos mas tinha 29 em 1974, quando fez a manchete da notícia mais importante do século XX português: “As Forças Armadas tomaram o poder”. A manchete foi impressa no jornal “República”, mas o seu nome não. “Isso nunca me incomodou. A notícia era mais importante do que eu”, explicou, com a simplicidade que o caracteriza, na segunda sessão das “Conversas de Jornalistas” de 2026, que se realizou no passado dia 25 de fevereiro.

Fundador, presidente e alma sempre presente do Clube de Jornalistas, Eugénio Alves foi justamente celebrado neste dia por várias gerações de jornalistas, que com ele partilharam histórias, memórias e inquietações sobre a profissão.

Com moderação de Maria Flor Pedroso, atual presidente do Clube, esta conversa contou também com a participação de Clara de Sousa, da SIC, e João Porfírio, fotógrafo do Observador.

CONVERSA INTEGRAL NO PODCAST “CONVERSAS DE JORNALISTAS”

Eugénio Alves começou por revisitar as suas origens no Norte do país, na aldeia de Crestuma, onde descobriu cedo a leitura e a curiosidade que o levaram ao jornalismo. “Viver numa quinta ensinou‑me tudo. A natureza obriga-nos a querer saber: onde estão os ninhos, qual a árvore que dá melhor fruto. Isso forma um jornalista sem ele saber”, disse. Aprendeu a ler cedo, empurrado pelos jornais que o pai comprava: “Lia o ‘Comércio do Porto’ todos os dias. A leitura foi o meu primeiro vício”.

Sobre a entrada no jornalismo, explicou que o primeiro passo foi dado no Record, mas o verdadeiro impulso veio da reportagem. “O jornalismo é um território de factos. Não se pode inventar nada”, sublinhou. Recordou ainda a reportagem que mais o marcou: a história de um homem pobre acusado de chantagem. “Nunca vi um rosto tão devastado. Ele não era criminoso: era um pai desesperado. Escrevi tudo como ele disse em discurso direto. Era a outra face da história. Essa foi a minha grande lição de vida”, lembrou, referindo que esse episódio moldou para sempre a sua ética profissional.

Foto: Inácio Ludgero

Clara de Sousa, a única jornalista que já apresentou noticiários em horário nobre nas três estações de televisão nacionais, encontrou inesperadas semelhanças no relato. “Senti‑me tão próxima do que o Eugénio descreveu… apesar das décadas que nos separam”, afirmou. Recordou a infância ligada à terra, e a rádio como primeiro território de comunicação: “Eu era uma tagarela incurável. Quando via os telexes, achava impossível apenas lê‑los como vinham. Precisávamos de lhes dar voz, dar alma, dar língua”.

Revelou também a influência do ambiente familiar: “A política estava sempre à mesa. A hora do telejornal era sagrada. Foi assim que aprendi a ouvir antes de falar”. E descreveu o início no jornalismo como inesperado: “Foi acidental. Entrei para comunicar música; fiquei para comunicar notícias”.

O mais jovem dos convidados, João Porfírio, hoje editor de fotografia do Observador, vencedor do Prémio Gabo e dos Prémio Gazeta por duas vezes, riu-se com a apresentação feita por Maria Flor Pedroso: “O João não fez nada no século passado — nasceu”. Brincadeiras à parte, o seu percurso, intenso e marcado pela política e pela fotografia documental, foi destacado como exemplo da vitalidade da nova geração. Sobre o terreno, costuma dizer: “O fotojornalismo só existe se estivermos lá. A política é feita de pessoas — e nós temos de mostrar essas pessoas”.

Maria Flor Pedroso relembrou no final o objetivo destas conversas: criar um espaço real de diálogo entre jornalistas.Estamos mesmo a precisar de falar uns com os outros. Este é um pedido recorrente: refletir sobre o que fazemos bem, o que fazemos mal e o que podemos fazer melhor”.

O encontro terminou com a reafirmação de um princípio que uniu todos os presentes: a responsabilidade social do jornalismo. Como sintetizou Eugénio Alves:O jornalista tem de ter memória, rigor e coragem. O resto aprende‑se. Mas estes três valores não podem falhar.”

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O Clube de Jornalistas iniciou em janeiro um novo ciclo mensal de “Conversas de Jornalistas”, iniciativa que concretiza o mote do Clube nos seus 40 anos: “Lançar ideias, premiar os melhores, juntar jornalistas de todas as gerações”.

Estas Conversas concretizam também uma das decisões saídas do 5.º Congresso de Jornalistas, respondendo à necessidade de serem promovidos encontros regulares para reforçar a reflexão conjunta, valorizar boas práticas profissionais e reafirmar o papel do jornalismo na esfera pública.

Onde estamos a falhar, porque estamos a chegar a menos pessoas? Quando e como é que perdemos a nossa credibilidade? Ou a nossa dignidade? Porque tem sido perdido o controlo editorial para o poder político e económico? Quais as boas experiências e práticas que estão a acontecer e que nos entusiasmam?

Este é um ponto de partida possível para percebermos o que está nas nossas mãos melhorar, exigir e não desistir.

Próximas Conversas de Jornalistas confirmadas:

  • 25 de março, às 18h00 — Fernanda Mestrinho
  • 22 de abril, às 18h00 — Cesário Borga

As datas seguintes serão divulgadas em breve.