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Mário Zambujal (1936-2026)

Mário Zambujal, fotografado por Inácio Ludgero

Escritor, jornalista e eterno “bom malandro”, Mário Zambujal morreu hoje, aos 90 anos. Presidente do Clube de Jornalistas entre 2007 e 2021, foi-lhe atribuído o Prémio Gazeta de Mérito em 2025.

Mário Zambujal, uma das figuras mais queridas e versáteis do jornalismo nacional, morreu esta manhã no Hospital da Luz, em Lisboa, uma semana depois de ter completado 90 anos. Deixa um legado marcante na imprensa escrita, na rádio, na televisão e na literatura.

O velório irá decorrer na Basílica da Estrela no sábado, 14 de março, partir das 17h, com missa às 20h00. O funeral realiza-se no domingo, às 11h00, no cemitério do Alto de São João.

* Depoimento de Maria Flor Pedroso na Antena 1

“Foi por causa do Mário Zambujal que hoje sou Presidente do Clube de Jornalistas. Foi ele que me desafiou para este papel de estar num clube que era tudo o que o Mário era. Que era um dos melhores, que era um local de convívio. O Mário adorava conviver, adorava conversar. Era daquelas pessoas que cumprimentava demoradamente. Era uma alegria. Ele era uma pessoa muito alegre. Vivia a vida em pleno, a vida toda. E deixa uma marca em quem o conheceu.
Ele viveu uma vida inteira. Foram mais de cinco décadas de atividade. Mas uma atividade frenética. Ele fazia tudo e fazia tudo bem. E sempre com um sorriso e sempre com um cuidado. Era uma pessoa muito especial. Era uma pessoa de uma enorme ternura, de uma enorme qualidade como ser humano, como profissional.
Ele foi profissional de todas as formas de comunicação. Na escrita, na palavra. Ele escreveu programas de rádio. Ele apresentou e escreveu e editou programas de televisão. Ele foi diretor da Modas e Bordados. Ele foi diretor do CEP, por exemplo. Ele tem uma vida profissional importantíssima e relevantíssima.
É um dos jornalistas mais completos da nossa vida pública. E estamos-lhe todos gratos pela forma como ele exerceu a sua profissão, com uma independência, com uma graça, com um jeito, com um estilo que é inconfundível. Há uma alegria que se perde com a perda dele.”

“Nunca hei de fazer uma diuturnidade em lugar nenhum”. Mário Zambujal cumpriu (quase) à risca a jura feita a si próprio, que revelou em 2018, numa entrevista no âmbito do projeto Arquivo de Memória Oral das Profissões da Comunicação, da Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa. Andarilho do Jornalismo, nunca esperou pelo complemento de salário que traduz a antiguidade do vínculo laboral. Ao longo da carreira, saltou de jornal em jornal até estabilizar na RTP. E mesmo na estação pública, onde passou duas décadas, tocou vários instrumentos.

Paulo Martins, Eugénio Alves, Maria Flor Pedroso e Mário Zambujal no Clube de Jornalistas, em 2021. Foto: José Frade

Nascido em Moura a 5 de março de 1936, viveu a juventude no Algarve e foi de lá que arriscou, aos 16 anos, as primeiras linhas num jornal: um conto no satírico Os Ridículos. Saiu-se bem: ainda publicou mais alguns, antes das crónicas no Jornal do Algarve e do trabalho como correspondente regional d’A Bola, em cujos quadros ingressou na década de 1960. Sequioso de alargar horizontes profissionais, transferiu-se para o Diário de Lisboa, onde chegou a subchefe de redação. Quando decidiu sair, só aguentou seis meses o lugar de subdiretor do Record, porque se abriu a porta d’O Século, que na época era irrecusável franquear. Ajudou a reforçar a redação; gastou, como tantos outros responsáveis editoriais durante o fascismo, muito tempo a regatear com a Censura a publicação de textos; viu-se no olho do furacão a seguir à queda do regime, a gerir os conflitos político-partidários que dilaceraram o grupo empresarial.

O contrato do passo seguinte explicitava: “subchefe de redação do Diário de Notícias [dirigido por Vítor da Cunha Rego] em comissão de serviço como diretor do Mundo Desportivo”, do mesmo grupo. Mas Zambujal não aquecia lugares. Meio ano volvido, torna-se o primeiro diretor do Se7e – não detinha conhecimento especializado na área dos espetáculos, mas conhecia bem a arte de fazer jornais. De novo em dupla condição, já que fazia parte da redação d’O Jornal.

O seu percurso, que ainda inclui os cargos de diretor-interino do Tal & Qual e de colunista do 24 Horas, ganhou novo rumo em 1977, quando mudou para a RTP. Assustou-se com o meio desconhecido, mas com a humildade que o caracterizava aprendeu depressa. Apresentador do programa desportivo Grande Encontro, emitido nas tardes de domingo, alcançou enorme popularidade. Deixaria marca noutros – de Quem conta um conto, que concebeu integralmente, a Semana que vem. Autor de guiões de séries da televisão e de textos para rádio, como do programa da Rádio Comercial Pão com Manteiga.

Mural em homenagem a Mário Zambujal, em Benfica. DR

Zambujal destacou‑se primeiro no jornalismo, mas veio também a tornar-se um escritor de renome. A sua estreia literária deu-se em 1980, com Crónica dos Bons Malandros, obra que se tornou um fenómeno de vendas e que veio a ser adaptada ao cinema, televisão e teatro musical. Seguiram-se títulos como Fim da RuaÀ Noite Logo se VêPrimeiro as SenhorasUma Noite Não São DiasSerpentinaFabíolo ou O Diário Oculto de Nora Rute. Em dezembro de 2025 publicou O Último a Sair, um romance policial que também incluiu a história Conto Final. Parágrafo.

Além dos romances, dedicou-se ainda à escrita de guiões televisivos e peças de teatro de revista, afirmando-se como um contador de histórias multifacetado, com um humor e estilo inconfundível.

Ao longo da carreira recebeu várias distinções, entre elas a condecoração com o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, em 1984, a medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Lisboa, em 2016, e o Prémio Gazeta de Mérito 2024, entregue pelo Clube de Jornalistas numa cerimónia em 2025 à sua filha Isabel.

O Gazeta de Mérito 2024 foi atribuído a Mário Zambujal, e o troféu foi entregue à sua filha, Isabel Zambujal, pelo presidente do júri, Eugénio Alves, pela presidente do Clube, Maria Flor Pedroso, e pelo vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Gonçalo Reis. Fotografia: Inácio Ludgero

Mário Zambujal deu muito de si ao Clube de Jornalistas, quer como sócio, desde a sua fundação, há 40 anos, quer como presidente da direção, durante 14 anos. Atualmente fazia ainda parte dos corpos sociais, como presidente da Assembleia Geral.

No passado dia 5 de março, celebrámos o seu 90.º aniversário republicando uma longa entrevista sobre a sua carreira. Falou da sua vida nas redações, do papel da Censura, das mudanças no jornalismo e da importância do convívio entre diferentes gerações de profissionais. Assumiu‑se como alguém que sempre privilegiou a verdade dos factos e a conciliação, dizendo: “Fui sempre um desalinhado – profissionalmente, é claro.”

Defendeu sempre a separação entre factos e opinião, recordando a sua formação: “Tenho a escola do ‘Le Monde’: notícias são factos puros e duros, a opinião é livre.” A desinformação moderna preocupava‑o profundamente. E, apesar das tensões que viveu nas redações, manteve sempre a postura conciliadora: “Parto sempre do princípio: este tipo está a dizer o contrário do que eu penso, não terá ele alguma razão?”

Mário Zambujal foi presidente do Clube de Jornalistas entre 2007 e 2021. Foto: José Frade

O Clube de Jornalistas lamenta profundamente a morte de Mário Zambujal e apresenta aos seus familiares e amigos as mais sentidas condolências.