Início Destaques A morte de Mário Zambujal nos jornais e as homenagens públicas de...

A morte de Mário Zambujal nos jornais e as homenagens públicas de várias gerações de jornalistas e escritores

Foram muitas as histórias e as mensagens de várias gerações de jornalistas e escritores publicadas na imprensa e nas redes sociais, desde a notícia da morte de Mário Zambujal, aos 90 anos, na quinta-feira, 12 de março. Transcrevemos algumas, na despedida deste “homem bom”, um “malandro” consensualmente admirado, e que viverá para sempre nos escritos que deixou e na memória de todos os que tiveram o privilégio de o ter como amigo.

“O Mário Zambujal nunca quis ensinar nada a ninguém e, no entanto, aprendíamos todos com ele. Perguntava como se quisesse não apenas saber, mas aprender – e eu, um miúdo, ali entre gigantes que riam muito, ele e o Baptista-Bastos, ele e o Manolo, eu maravilhado por poder sentar-me à mesa com tantas canetas na ponta da língua. O Mário era suave até quando falava dos filhos da puta, era muito generoso com os amigos, era gentil quando contava histórias, milhares de histórias, histórias de jornais, de pessoas, de Lisboa. E ria, sorria, sorria sempre, sempre, no princípio e no fim. Saudades, já, de uma jóia de homem.”
Pedro Santos Guerreiro, jornalista, diretor executivo da CNN Portugal e da TVI

Mário Zambujal acabara de fazer 90 anos, mas era um miúdo, não sei como explicar bem isto. O mais jovem jornalista que conheci, porventura o último de um tempo que fez-se ao caminho antes dele – o “bom malandro” que viveu dentro de uma prosa feita de uma Lisboa que já não existe, de uma grandeza decadente em que só os vencidos contavam: os pequenos ladrões, os bufos, as putas e os chulos, o whisky e o medronho, os matadores e a malta dos jornais que vivia dentro do tabaco e tão rebentados como os inspetores da “Judite” que se deitavam sem cama certa quando a cidade acordava.
Não me passou pela cabeça que pudesse morrer. Os museus não morrem assim e o Mário era um museu a céu aberto. Continuava a escrever livros, mas quem o conhece sabe bem que ele era o seu melhor livro. Quando se sentava connosco, sempre amável, só nos restava, só me restava, escutá-lo e imaginar o que se tornou impossível de tornar a ver. Os canalhas passaram a estar vestidos com bugigangas caras e perderam os códigos de honra e o romantismo. Já não há poesia no fundo de um Famous Grouse, os vencidos querem ser vencedores e deixaram de conhecer os escritores e os jornalistas. Nem nós os conhecemos a eles. estamos na nossa vidinha, uns mais cómodos do que outros, mas na nossa vidinha. O Mário Zambujal já não pertencia a este mundo.”
Luís Osório, “Figura do Dia”, Diário de Notícias

Se alguma vez me ocorresse pensar em ser do Benfica (que Deus me guarde), teria sido por causa das falinhas do Mário Zambujal – e para poder ir com ele à bola. O Mário foi de um época em que havia redações estapafúrdias, sofisticadas, malandras e onde se sabia escrever. Ele sabia escrever e sabia falar. Falinhas mansas, o malandro, o patife, o maroto que há de sentar-se à direita do Criador e convencê-lo de que sabe os números do euromilhões. Detesto a palavra “ternura”, tão usada – mas ele era essa palavra. Quando os meus filhos começavam a desertar dos livros, mandava-os ler a ‘Crónica dos Bons Malandros’, claro (e ‘O Que Diz Molero’, de Dinis Machado). Tinha aquela coisa maravilhosa, alentejana, de um copinho de vinho, uma côdea, uma tirinha de queijo, não sei se me faço entender, enquanto nos fazia rir ou nos comovia com uma história. A sua leveza era beleza – mas impura, inteligente e mariola. Era um dos tipos mais generosos que conheci, com quem ninguém podia zangar-se. Sabia-a toda, este homem querido.
Francisco José Viegas, “Blog”, Correio da Manhã

“Foi-se, finou-se e pirou-se, aos 90 anos, um homem bondoso e pacato, e um escritor ainda melhor que um Grande Escritor: um felicíssimo pequeno escritor. Muito me deliciei em 1980 com o seu primeiro romance, ‘A Crónica dos Bons Malandros’. Não tão pertinente e ‘digno de cânone’ como ‘O que diz Molero’ do seu colega Dinis Machado, publicado três anos antes – mas também uma delícia. E com uma escrita ainda bem mais leve, acessível, muito bem esgalhada, ou não fosse o Mário oriundo da então melhor Oficina de Escrita Criativa, o jornalismo desportivo, onde com frequência o entusiasmo verbal colmatava a pobreza franciscana dos jogos.
O Mário era um homem sorridente, de bem com a vida, e que mesmo aos oitenta e muitos punha salas a sorrir. Teve leitores muitos. Nisso lembrava-me outro pequeno gigante, o delicioso pedagogo brasileiro Ariano Suassuna. Era um talentoso folgazão e, como se sói dizer, ‘um lídimo representante’ do tempo das tertúlias. Talvez mesmo o último moicano. Uma vez perguntaram a um famoso linguista se não estava triste por, ao morrer o último falante, mais uma língua ter desaparecido da Terra. ‘Não, porque ele a falava muito bem!’
Adeus, Mário, também nos falavas muito bem. Agora, vai lá para o Céu moer o juízo aos anjos, que já devem estar a esfregar as asas de contentes por enfim terem alguém divertido com quem conversar.”

Rui Zink, escritor

“Mário Zambujal, o homem de quem toda a gente gostava. Era impossível não gostar. Não há melhor currículo. A quantidade de vezes que hoje vão dizer e escrever que era um bom malandro. E era. Muito mais bom que malandro. O seu sorriso era o seu retrato.”
Nuno Artur Silva, escritor e argumentista

“Antes de o conhecer numa entrevista em 1998 era como se fosse um amigo de longa data. Devo ter lido umas trinta vezes a ‘Crónica dos Bons Malandros’, além de tudo que o Mário esgalhava. Era um prato, uma alma boa, gentil, tipo um budista sem ser monge. Ninguém conseguia ficar zangado ao pé do Mário. Passar uma vida a dizerem isto de nós é um ritual de passagem para o Olimpo. Os livros, esses, são puro deleite intemporal. Para que conste assinou-me um mui generoso prefácio de ‘As Rotas do Sonho’, que por graça ou gralha, quase saía as Ratas.”
Tiago Salazar, ex-jornalista e escritor

“São muitos os momentos em que tive o gosto (direi mesmo o enorme prazer) de contactar pessoal e profissionalmente com o “bom malandro” Mário Zambujal, hoje desaparecido do mundo dos vivos, para (quem sabe?) ir divertir alguns anjos nalgum Céu que possa existir.
Encontrámo-nos, pela primeira vez, em termos profissionais, na Redacção do Diário de Lisboa, nalguma data indeterminada da segunda metade da década de 1960, talvez aí por 67/68…
Desde então, encontrámo-nos e desencontrámo-nos várias vezes, em diversas circunstâncias, designadamente n’O Século, no Diário de Notícias e, finalmente, nos semanários O Jornal & Se7e (neste último caso ele como primeiro director).
Mas, entre tantas oportunidades, aquela que para mim ganha mais presença é a que se liga à eclosão do 25 de Abril de 1974 e à Libertação daí decorrente!
Ele era, nessa altura, o chefe de redacção de O Século, tendo-me a mim e ao Hernâni Santos como seus adjuntos — trabalhando cada um de nós os dois, em dias alternados, em “turnos” de pelo menos doze horas praticamente seguidas, com um intervalinho para uma “bucha” appressada. Cada edição fechava invariavelmente cerca das duas/três horas da madrugada seguinte.
Pois aconteceu que, tendo-me calhado a jornada de 24 de Abril, estava eu quase de saída à hora habitual, depois de fechada a 1.ª página, com o José Mensurado, sou surpreendido com a informação de que estavam militares a escalar os muros da Emissora Nacional, ao Quelhas. A novidade era-nos trazida pelo José Carlos Galiano, que trabalhando num serviço da empresa de O Século tinha também uma qualquer função, em regime de segundo emprego na E. N…
Lançado o alerta, era preciso saber o que se passava, o que foi feito mediante o envio ao local do João Carreira Bom, nessa data de piquete… Aí se iniciou a chamada à redacção da maior quantidade possível de redactores e repórteres, ao mesmo tempo que se procurava avisar o Mário Zambujal, onde ele pudesse estar, possivelmente na cave da Cova da Onça, como era muitas vezes comum. E lá estava ele, de facto, numa das suas habituais charlas com amigos…
Alertado também o director, Manuel Figueira, logo se iniciou a feitura de sucessivas edições do jornal, com muitos milhares de cópias a sair das rotativas, nas caves do velho edifício…
Estou a rever mentalmente o bulício ali reinante, com repórteres a sair e a entrar, sem parar! E o Mário Zambujal no seu gabinete com paredes de vidro a dar directamente para Redacção… E ninguém largava o “osso” das informações a fluir daqui e dali.
No meu caso, a verdade é que não saí dali praticamente durante três dias seguidos, só com uma não muito larga interrupção para ir a casa, tomar banho e almoçar com a família, até porque fazia 32 anos no dia 26… Daí a minha especial memória de Mário Zambujal nessa ocasião especialmente histórica!… E volto a imaginá-lo, algures, não sei onde!, a contar histórias a alguns anjos!…”

José Silva Pinto, jornalista