Fernanda Mestrinho, com uma vida profissional intensa na imprensa e na televisão, no Sindicato e no Clube, e que ajudou a formar várias gerações de jornalistas, foi a homenageada de março nas “Conversas de Jornalistas”, iniciativa que concretiza o mote do Clube nos seus 40 anos: “Lançar ideias, premiar os melhores, juntar jornalistas de todas as gerações”.
Juntaram-se Miguel Carvalho, agora freelancer, com um percurso longo na imprensa, do Diário de Notícias à Visão, e escrevendo livros como Amália e Por Dentro do Chega, e Sofia Craveiro, da revista Gerador, que recentemente ganhou o Prémio Mário Soares, Liberdade e Democracia da Assembleia da República.
Uma conversa a três, com moderação de Maria Flor Pedroso, disponível em podcast para utilização por qualquer órgão de comunicação social, com a identificação do Clube de Jornalistas.
Numa conversa marcada pela memória, crítica e esperança, Fernanda Mestrinho, Miguel Carvalho e Sofia Craveiro defenderam a necessidade de recuperar o território, a autonomia editorial e a função essencial de fazer perguntas. Todos apontaram a precariedade, a perda de tempo para refletir e o afastamento dos cidadãos como problemas centrais do jornalismo nos dias de hoje.
Para Fernanda Mestrinho, que viveu intensamente o período pós‑25 de Abril, o jornalismo perdeu profundidade ao acelerar em excesso. “Hoje, o jornalismo vive numa lógica supersónica. A notícia nasce, morre e ninguém retifica. Vive‑se um jornalismo de declaração, esquizofrénico. Falta tempo, falta reflexão.” A jornalista alertou ainda para o impacto da sobreinformação no público: “O maior problema é termos muita informação e pouca reflexão. As pessoas leem três linhas, veem um título e acham que sabem tudo.”
A antiga jornalista da RTP rejeitou também a ideia de submissão política do serviço público. “Há uma ideia errada de que a televisão pública serve sempre o governo. Não é verdade. Fui demitida por um governo do PS”, sublinhou, defendendo a importância da independência editorial. Para Mestrinho, a perda de credibilidade começou com a privatização e com a proximidade excessiva entre jornalistas e políticos: “Eu nunca tratei políticos por ‘tu’. A perda dessa barreira cria cumplicidade excessiva.”
Também Miguel Carvalho traçou um retrato crítico do presente, classificando o momento atual como “o período mais frágil do jornalismo em democracia”. O jornalista apontou a lógica das audiências como um fator determinante nas decisões editoriais. “As decisões são tomadas com base em audiências, não em critérios jornalísticos”, afirmou, acrescentando que quem tenta resistir fá‑lo muitas vezes de forma isolada.
Miguel Carvalho criticou ainda a substituição do jornalismo pela opinião permanente. “Estamos a abdicar da nossa função principal: fazer perguntas. Entregámos isso a comentadores encartados. O jornalismo virou combate de boxe anunciado nas redes sociais”, disse. Para o jornalista, o afastamento do território tem consequências políticas: “Só aparecemos quando há sangue ou tragédia. As pessoas sentem‑nos como abutres, e com razão.”
A partir de uma experiência no jornalismo local, Sofia Craveiro destacou o papel transformador da proximidade. “Percebi que a escrita podia estar ao serviço da comunidade”, afirmou, recordando o impacto concreto de reportagens que levaram a intervenções autárquicas. A jornalista sublinhou que cresceu sem se sentir representada pelos media nacionais: “As comunidades do interior simplesmente não existiam no discurso mediático.”
Para Sofia Craveiro, um dos principais entraves ao bom jornalismo é económico. “O problema central é o modelo de financiamento. O bom jornalismo não sobrevive só de publicidade ou audiências”, explicou, referindo a experiência do Gerador como uma tentativa de modelo híbrido. Alertou ainda para a dependência financeira da imprensa local face às autarquias: “Quando sai uma notícia incómoda, corta‑se a publicidade.”
Apesar do diagnóstico severo, os três jornalistas deixaram sinais de esperança. Fernanda Mestrinho destacou o trabalho de novas gerações: “Há gente nova a fazer jornalismo sério, apesar de todas as dificuldades. Isso dá‑me esperança.”
Miguel Carvalho defendeu como prioridade editorial “regressar ao território, ouvir as pessoas, mesmo quando isso incomoda”.
No encerramento da conversa, ficou a ideia de que o futuro do jornalismo depende da capacidade de recuperar tempo, proximidade e responsabilidade. Como resumiu Sofia Carveiro, “o jornalismo precisa de voltar a ser humano, próximo e responsável”.
Em janeiro, o homenageado nas “Conversas de Jornalistas” foi José Carlos de Vasconcelos, com a participação de Pedro Coelho e Tatiana Felício. Em fevereiro, o foco esteve em Eugénio Alves, à conversa com Clara de Sousa e João Porfírio.
A próxima “Conversa de Jornalistas” está já marcada para 22 de abril, homenageando Cesário Borga.