No dia 2 de abril, data do 50.º aniversário da aprovação da Constituição da República Portuguesa, é inaugurada na Sala de Âmbito Cultural do El Corte Inglés, em Lisboa, a exposição “Nos 50 anos da aprovação da Constituição”, com fotografias de Inácio Ludgero. A mostra reúne imagens captadas durante os trabalhos da Assembleia Constituinte, fixando momentos e protagonistas de um dos períodos fundadores da democracia portuguesa.
A inauguração, marcada para as 18h30, conta com uma conferência do historiador José Pacheco Pereira, e intervenções de Maria Inácia Rezola, comissária executiva das Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, e do autor, Inácio Ludgero. A entrada é livre, sujeita a inscrição prévia.
A exposição reúne 15 fotografias captadas por Inácio Ludgero ao serviço do diário A Capital e do semanário O Jornal, durante os trabalhos da Assembleia Constituinte.
O autor recordou esses tempos numa visita ao Parlamento, registada em vídeo, e destaca três momentos fundamentais: “O primeiro momento é a 25 de abril de 1975, na Fundação Calouste Gulbenkian, onde foram anunciados os resultados do primeiro escrutínio em liberdade. Ficámos a saber quem eram e por que partidos tinham sido eleitos os Deputados para elaborarem a nossa primeira Constituição em liberdade.” Evoca ainda o chamado “caso República”, quando permaneceu encerrado durante a noite nas instalações do jornal, e o 25 de Novembro, em Tancos: “A foto, que partilho nesta exposição, custou-me um despedimento (…) Mas essa história vou contá-la no dia da inauguração.”
José Pacheco Pereira sublinha a centralidade das eleições para a Assembleia Constituinte no processo democrático, considerando que foram “as primeiras eleições em liberdade, cuja participação mostrou o seu valor simbólico na consolidação da democracia”. E acrescenta: “As fotografias de Inácio Ludgero retratam esse processo (…) Quem está nas fotografias são os ‘construtores’ da nossa democracia.” O olhar que estas imagens propõem é, nas palavras do historiador, “o de quem sabe que dois anos antes nada daquilo era possível”.
Para Pacheco Pereira, a desvalorização das eleições para a Assembleia Constituinte na memória coletiva é “ofensiva para quem viveu os acontecimentos”. Foram, sublinha, as primeiras eleições em liberdade, cuja participação revelou, no ano quente de 1975, que o voto e a rua não eram a mesma coisa.
Os seus resultados influenciaram decisivamente os militares moderados que travaram a radicalização — porque sabiam ter o apoio político da maioria dos portugueses. Sem essas eleições, teria sido muito difícil obter a legitimidade necessária para agir, como viria a acontecer no 25 de Novembro.
Para a Comissária Executiva das Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, Maria Inácia Rezola, “assinalar os 50 anos da aprovação da Constituição é também revisitar o processo que lhe deu origem e reconhecer o papel de quem o protagonizou. Estas imagens recordam-nos que a democracia foi construída em circunstâncias exigentes e que a Constituição permanece um dos pilares fundamentais do regime democrático.”
A exposição permanecerá no El Corte Inglés até 2 de maio, transferindo-se depois para a Fundação Mário Soares e Maria Barroso, e posteriormente para a Biblioteca Municipal de Ferreira do Alentejo.

Inácio Ludgero, nascido em 1950, iniciou a sua atividade profissional em 1972, nos quadros d’A Capital, transitando para O Jornal e depois para a revista Visão, onde se manteve a trabalhar até à reforma. Ao longo de décadas de fotojornalismo, recebeu distinções nacionais e internacionais, entre as quais o Prémio Gazeta, em 1993, pela fotografia “Pietà Negra”, no âmbito de uma reportagem em Angola que foi tema de capa do nº 1 da revista Visão, e que a Associated Press distinguiu como uma das 50 fotografias do século XX. Em junho de 2022, celebrando 50 anos de carreira, foi condecorado com o grau de Comendador da Ordem do Mérito pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no Clube de Jornalistas.