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Cesário Borga foi o homenageado de abril nas Conversas de Jornalistas: “O jornalismo não pode desistir”

José Manuel Rosendo, Maria Flor Pedroso, Cesário Borga e Ana Tulha, na 4.ª Conversa de Jornalistas. Foto: Inácio Ludgero

O peso da reportagem, a pressão do imediatismo, a precariedade nas redações e o impacto das redes sociais marcaram a quarta “Conversa de Jornalistas”, que junta mensalmente três gerações da profissão no Clube de Jornalistas.

Cesário Borga foi o homenageado a 22 de abril nesta iniciativa que concretiza o mote do Clube nos seus 40 anos: “Lançar ideias, premiar os melhores, juntar jornalistas de todas as gerações”.

Juntaram-se José Manuel Rosendo, jornalista da Antena 1 desde 1993, grande-repórter em vários cenários de guerra, com um foco particular no Médio Oriente, e Ana Tulha, jornalista formada no Porto e que trabalhou n’A Bola, Público, Agência Lusa e Jornal de Notícias, estando desde 2018 na Notícias Magazine.

Uma conversa com moderação de Maria Flor Pedroso, transmitida em direto no YouTube com o apoio do Cenjor, e disponível em podcast para utilização por qualquer órgão de comunicação social, com a identificação do Clube de Jornalistas.

Esta Conversa foi menos um exercício de nostalgia e mais um debate sobre o presente e o futuro do jornalismo. Desde o início, Cesário Borga deixou clara a ideia central da conversa: “O jornalista é um mediador. Se deixar de o ser, deixa de fazer jornalismo.”

Cesário Borga recordou um tempo em que não existiam cursos nem formação estruturada. “Quando comecei, não havia nada. Nada mesmo. Não havia escolas de jornalismo, aprendia‑se a trabalhar, trabalhando.”

O primeiro contacto com a profissão aconteceu num jornal ligado à Juventude Operária Católica, onde descobriu a reportagem como essência do ofício: “Foi aí que comecei a ir aos sítios, a falar com as pessoas e a escrever. Ainda hoje acho que sou fundamentalmente repórter.”

Também José Manuel Rosendo sublinhou a importância da prática, embora o seu percurso tenha sido mais tardio e acidentado: “Cheguei tarde ao jornalismo, mas cheguei convicto. Só nas rádios locais percebi que era isto que queria fazer da vida. Não tinha cunhas, não tinha universidade nem ligações. Demorei a entrar, mas não desisti.”

Ana Tulha, representante de uma geração já formada em contexto académico, reconheceu sinais mais cedo, mesmo antes de ter consciência da escolha profissional: “Só no secundário percebi que queria ser jornalista, mas olhando para trás vejo que houve vários sinais.”

A reportagem surgiu como o ponto de maior consenso entre os três jornalistas. “A grande arma do jornalismo continua a ser a reportagem”, defendeu Cesário Borga. “Ir aos sítios, ver, investigar e contar.” O jornalista evocou episódios da sua carreira como correspondente em Espanha para ilustrar o valor de estar no terreno: “Muitas das grandes histórias aparecem quando não estamos à espera. Isso só acontece a quem anda na rua.”

José Manuel Rosendo concordou, mas alertou para as limitações atuais. “Temos redações esmagadas por um caudal de informação enorme e com poucos recursos. Muitas vezes não há condições para enviar repórteres.” Ainda assim, deixou claro o fascínio do trabalho de campo: “As poucas vezes em que pude estar semanas no terreno, sem a pressão do direto, foram das experiências mais marcantes da minha carreira.”

Ana Tulha reforçou essa ideia a partir da sua experiência na Notícias Magazine: “É na reportagem que sinto que faço jornalismo a sério. É onde me sinto mais confortável e realizada.”

Fotos: Inácio Ludgero

O impacto das redes sociais foi abordado de forma crítica, mas sem discursos saudosistas. “Hoje muitas notícias deixaram de ser decididas pelas redações”, lamentou Cesário Borga. “Passam a ser aquilo que circula nas redes, sem sabermos se é verdadeiro.” Ainda assim, rejeitou fatalismos: “Os jornalistas estão a aprender a defender‑se. As redes podem ser um ponto de partida, nunca um ponto de chegada.”

José Manuel Rosendo apontou as redes sociais como o maior risco, pois “forçaram um imediatismo que nos rouba tempo para interpretar”. E deixou um aviso claro: “Não devemos querer concorrer com as redes sociais. O nosso trabalho é outro.”

Ana Tulha trouxe exemplos concretos do afastamento dos mais jovens do jornalismo profissional: “Vejo cada vez mais gente que se informa apenas nas redes sociais e não distingue informação de propaganda. Já tive estagiários de jornalismo a dizerem que não leem jornais.”

Os baixos salários e a dificuldade em construir uma carreira estiveram também no centro do debate. “Tenho colegas com mais de 30 anos que ainda vivem em casa dos pais”, afirmou a jornalista da Notícias Magazine. Apesar disso, destacou a persistência de muitos jovens jornalistas: “Mesmo com salários baixos, há muita gente com grande amor à camisola. Isso dá‑me esperança.”

José Manuel Rosendo alertou ainda para a perda de talento: “Estamos a formar pessoas muito boas, mas depois não temos capacidade para as reter.”

Sobre a crescente presença de comentadores, Rosendo criticou a confusão de papéis: “Vejo militares a comentar política e analistas políticos a comentar guerra. Alguma coisa está errada.” E defendeu que o jornalista não deve abdicar da análise informada. “Depois de décadas a estudar um tema, dizer que um jornalista não pode ter opinião não faz sentido.”

Cesário Borga sintetizou a responsabilidade da profissão: “O jornalista tem de olhar para os factos, investigá‑los e contá‑los. Se começa a desligar‑se da realidade, deixa de cumprir a sua função.”

No exercício final, sobre o que fariam se tivessem responsabilidades editoriais, Ana Tulha defendeu mais jornalismo de investigação: “Ainda sabemos pouco sobre quem são e o que querem alguns fundos que entram nos grupos de comunicação.”

José Manuel Rosendo apelou a recuperar o essencial. “Estamos demasiado presos às agendas políticas. Precisamos de voltar a perguntar o que é que realmente interessa às pessoas.”

A fechar, Cesário Borga deixou a ideia que atravessou toda a conversa: “O jornalismo enfrenta muitas dificuldades, mas não pode desistir. Ver, investigar e contar continua a ser o nosso trabalho.”