A precariedade, a perda de recursos nas redações e os riscos para a qualidade da informação foram temas dominantes na 5.ª sessão das “Conversas de Jornalistas”, mas os convidados sublinharam que continua a haver “muito bom jornalismo” em Portugal.
Daniel Reis foi o homenageado a 27 de maio, concretizando o mote do Clube nos seus 40 anos: “Lançar ideias, premiar os melhores, juntar jornalistas de todas as gerações”.
Juntaram-se-lhe Ricardo Alexandre e Vânia Maia, numa conversa com moderação de Maria Flor Pedroso, transmitida em direto no YouTube com o apoio do Cenjor, e disponível em podcast para utilização por qualquer órgão de comunicação social, com a identificação do Clube de Jornalistas.
Daniel Reis é uma figura marcante do jornalismo português, com um percurso que atravessa várias gerações, redações e momentos decisivos da história recente do país. Com mais de meio século de profissão, construiu uma carreira sólida assente na reportagem, no rigor documental e no compromisso com os valores fundamentais do jornalismo.
Passou por várias redações, entre as quais o Diário de Lisboa, o Norte Desportivo, o Comércio do Porto e o Expresso, onde consolidou a sua especialização na cobertura política. Foi também presidente do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas, tendo participado na redação do Código Deontológico aprovado em 1993, um marco na ética profissional em Portugal.
Ricardo Alexandre é jornalista especializado em política internacional, com um percurso consolidado na rádio e na televisão. Com formação em Sociologia e doutoramento em Ciência Política, iniciou a carreira no contexto das rádios locais e integrou posteriormente a rádio pública, desenvolvendo‑se como repórter e editor.
Foi editor e diretor adjunto em diferentes órgãos, destacando‑se o seu trabalho na TSF, onde tem desempenhado funções de editor internacional. Ao longo da carreira, acompanhou grandes temas da política global e contribuiu para a análise de assuntos internacionais em rádio e televisão. Paralelamente, dedica‑se ao ensino do jornalismo e da ciência política, sendo reconhecido pela reflexão crítica sobre os media e pela defesa da qualidade informativa.
Vânia Maia é jornalista e investigadora, formada em Ciência Política, com pós‑graduação em cultura contemporânea e jornalismo colaborativo. Iniciou a carreira após uma formação no Cenjor e trabalhou na revista Visão, onde desenvolveu grande parte do seu percurso, tendo sido distinguida com vários prémios, incluindo o reconhecimento de “quase Gazeta Revelação”… foi premiada mas não recebeu o prémio do Clube de Jornalistas por ter mais anos de carteira profissional do que o regulamento permitia.
Atualmente trabalha como freelancer, colaborando com diferentes meios e projetos jornalísticos. Paralelamente, leciona jornalismo e desenvolve investigação académica na área do jornalismo de investigação, sendo uma voz ativa na reflexão sobre condições de trabalho, modelos de negócio e o futuro da profissão.
A crise estrutural do jornalismo em Portugal, marcada por baixos salários, falta de recursos e mudanças no consumo de informação, dominou o debate. Mas, apesar das dificuldades, a ideia transversal foi clara: a profissão mantém relevância e qualidade, ainda que sob pressão.
Um dos temas consensuais foi a degradação das condições de trabalho ao longo das últimas décadas. “Entrava‑se na profissão há 30 anos praticamente com o mesmo valor que agora”, alertou Ricardo Alexandre, lembrando que os rendimentos iniciais pouco evoluíram.
A jornalista Vânia Maia confirmou essa realidade, descrevendo a dificuldade de permanecer na profissão. “Sem apoio financeiro familiar, provavelmente não me teria aguentado na profissão”.
A escassez de recursos humanos nas redações foi apontada como uma das principais causas da perda de qualidade e diversidade na cobertura. “Temos uma enorme oferta informativa, mas não temos tempo para tudo”, sublinhou Ricardo Alexandre. “Ter responsabilidades editoriais hoje é uma dor de cabeça – não há meios e não há gente.”
Outro ponto de preocupação é a distância crescente entre os media e parte da sociedade. Segundo Vânia Maia, as redações tornaram‑se menos representativas. Ricardo Alexandre reforçou a ideia: “As redações não refletem a sociedade, continuam muito homogéneas.” Este afastamento, defenderam, contribui para a desconfiança do público e para a dificuldade em captar novas audiências.
A crise do modelo de negócio dos media foi outro dos eixos centrais da discussão. O baixo número de leitores dispostos a pagar por informação condiciona escolhas editoriais, reduzindo a capacidade de investir em investigação.
“A investigação distingue os jornais e tem elevado valor social”, defendeu Vânia Maia, alertando que esse tipo de jornalismo exige tempo e recursos. Ao mesmo tempo, cresce o peso de conteúdos mais baratos de produzir.
Os participantes apontaram também a proliferação de comentadores como um sintoma das dificuldades estruturais do setor. “É mais barato ter comentadores do que produzir um programa”, criticou Daniel Reis. A pressão das audiências, especialmente na televisão, contribui para o fenómeno. “As audiências são medidas minuto a minuto e isso condiciona decisões editoriais”, lembrou Ricardo Alexandre. Este contexto leva a um “mimetismo” entre meios, com conteúdos semelhantes a dominar o espaço informativo.
Apesar das críticas, houve também uma forte defesa dos princípios fundamentais da profissão. Para Daniel Reis, o rigor permanece central. “O jornalista deve ter uma forte ligação às provas documentais e ao arquivo.” Já Vânia Maia destacou o papel cívico e até emocional da informação: “Ler uma grande reportagem é um prazer… é melhor que um romance, porque é real.” E deixou um apelo ao público: “É importante ter uma dieta noticiosa consciente.”
Apesar das fragilidades do setor, os jornalistas mostraram confiança nas novas gerações. “Há muita gente nova a trabalhar muito bem e com enorme dedicação”, sublinhou Ricardo Alexandre. Para Vânia Maia, a qualidade continua a surpreender: “Todas as semanas sou surpreendida com trabalhos de elevadíssima qualidade.”
O futuro da imprensa em papel foi igualmente questionado. Daniel Reis arriscou uma previsão, considerando que bastarão “mais cinco anos e acaba o papel em Portugal”. Ainda assim, a transição digital é vista como inevitável, embora desafiante do ponto de vista económico e editorial.
No final, ficou a ideia de um jornalismo em transição, pressionado por fatores económicos, tecnológicos e sociais, mas ainda essencial ao funcionamento da democracia. Como sintetizou Vânia Maia: “É o melhor ofício do mundo, ainda que por vezes o pior emprego do mundo.”