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Ribeiro Cristóvão homenageado na 6.ª sessão das Conversas de Jornalistas: “Há uma avidez enorme em chegar primeiro”

Foto: Clube de Jornalistas

A perda de credibilidade do jornalismo, a pressão da concorrência e a urgência de recuperar a confiança do público foram os temas dominantes na 6.ª sessão das “Conversas de Jornalistas”. Ribeiro Cristóvão foi o homenageado a 24 de junho, concretizando o mote do Clube nos seus 40 anos: “Lançar ideias, premiar os melhores, juntar jornalistas de todas as gerações”.

Juntaram-se-lhe Rui Tavares Guedes e Cátia Bruno, numa conversa com moderação de Maria Flor Pedroso, transmitida em direto no YouTube com o apoio do Cenjor, e disponível em podcast para utilização por qualquer órgão de comunicação social, com a identificação do Clube de Jornalistas.

Ribeiro Cristóvão, figura histórica da rádio portuguesa, considera que a intensificação da concorrência teve impacto direto na qualidade da informação. “Hoje há uma avidez enorme para chegar primeiro à notícia do que o nosso vizinho do lado. Isso às vezes leva‑nos a cometer algumas imprecisões”, disse, sublinhando a diferença face ao passado. “Antigamente as coisas eram trabalhadas com mais calma; hoje este jornalismo é mais rápido, é mais veloz”.

O jornalista lembrou uma época em que a confirmação das fontes era essencial: “Eu não permitia que fossem dadas notícias sem as fontes serem bem contactadas e cruzadas.”

Ao recordar a experiência na “Bola Branca”, destacou que era também isso que fazia a diferença: “Procurámos inserir sempre uma grande seriedade na informação. Ser rigoroso nas notícias, confirmar bem as fontes e cruzar a informação. Se a ‘Bola Branca’ dizia, era porque era verdade.”

Por isso, Ribeiro Cristóvão considera que hoje a abundância de informação não significa melhor jornalismo. “Hoje há uma diversidade muito grande de informação e sobretudo uma grande concorrência”, afirmou, mas “às vezes fica‑se a ver horas a fio as traseiras dos autocarros e a ouvir comentários que não acrescentam nada”.

Ainda assim, reconhece evolução no setor: “Hoje a informação está muito mais desenvolvida e tem profissionais com muita capacidade, há muita gente nova a fazer bem ou a tentar fazer bem.”

Para Rui Tavares Guedes, diretor da revista Visão, o problema central não está apenas na atenção do público, mas na credibilidade da informação. “A principal batalha do jornalismo hoje, mais do que a da atenção, devia ser a de restaurar a confiança”, afirmou, alertando que os jornalistas se estão a aproximar excessivamente de modelos de entretenimento digital.

“Ao tentar correr atrás de tudo, estamos a transformar‑nos iguais aos criadores de conteúdos”, disse, sublinhando que isso pode ser contraproducente: “Quando entramos nesse caminho, perdemos”.

O jornalista defendeu que o rigor deve voltar a ser o principal fator distintivo: “Aquilo que nos tem que distinguir é a veracidade. Quando a notícia ali era dada era de confiança — isso é que nos deve distinguir”.

Do ponto de vista internacional, Cátia Bruno, jornalista do Observador, apontou para outro problema: a incapacidade dos media acompanharem fenómenos complexos. “Estamos sempre a ir atrás do que determinada figura política disse naquele dia”, afirmou, referindo‑se à cobertura de Donald Trump. “Andamos atrás de migalhas que não significam nada”.

Para a jornalista, isso compromete a compreensão global dos temas: “Temos de encontrar ângulos que ajudem a perceber melhor o contexto, em vez de transmitir apenas mensagens”.

Também destacou a importância de humanizar os acontecimentos: “O jornalismo tem o poder de fazer com que, ao olhar para um milhão, as pessoas se lembrem que há um milhão de vidas”.

Redações mais pequenas e menos debate

Outro ponto comum foi a transformação das redações, hoje mais pequenas e fragmentadas. “Há muito menos tempo para discutir do que deveria”, admitiu Cátia Bruno, que trabalha com uma equipa reduzida. “O jornalismo não é uma profissão que se faça no silêncio”.

Rui Tavares Guedes acrescentou que a pressão do dia a dia limita a reflexão: “Está tudo a correr na roda do ratinho, a tentar preencher espaço e chamar atenção”. Essa falta de tempo para pensar pode, segundo os participantes, contribuir para a uniformização dos conteúdos.

“Muitas vezes vai tudo a correr atrás do que o vizinho está a falar”, disse Rui Tavares Guedes, defendendo que os jornalistas devem apostar mais em temas próprios. “Há uma agenda da vida das pessoas que nem sempre coincide com a agenda mediática”, lembrou.

Apesar de tudo, e dos baixos salários e redações pequenas, “continua a ser feito jornalismo de muita qualidade”, sublinhou Cátia Bruno.

Para Rui Tavares Guedes, o caminho passa por assumir uma nova escala. “Já não somos mass media. Essa batalha perdemo‑la”, considera. A solução passará por adaptar estruturas e focar‑se no valor acrescentado. Porque, recorda, “a função do jornalismo neste momento é dar valor acrescentado em relação à informação”.

Já Ribeiro Cristóvão mantém uma visão pragmática, valorizando o papel contínuo dos media tradicionais: “A televisão tornou‑se uma companhia indispensável para toda a gente”.

Com percursos que vão dos 36 aos 86 anos, os participantes sublinharam a importância de cruzar gerações. “Temos de aprender uns com os outros”, afirmou Maria Flor Pedroso, destacando a missão do Clube de Jornalistas de “cruzar experiências e pensar em conjunto”.

No final, Ribeiro Cristóvão deixou uma nota pessoal sobre a profissão: “Estou grato às pessoas que me transmitiram confiança ao longo dos anos”.

E deixou implícita a principal lição do encontro: num tempo de excesso de informação, o futuro do jornalismo passa por recuperar aquilo que o tornou relevante: rigor, contexto e credibilidade.

Esta foi a 6.ª sessão desta iniciativa que teve início em janeiro, com uma homenagem a José Carlos de Vasconcelos, com a participação de Pedro Coelho e Tatiana Felício. Em fevereiro, o foco esteve em Eugénio Alves, à conversa com Clara de Sousa e João Porfírio. Em março, Fernanda Mestrinho conversou com Miguel Carvalho e Sofia Craveiro. Em abril, ouvimos Cesário Borga, José Manuel Rosendo e Ana Tulha. Em maio foi a vez de Daniel Reis ser homenageado, tendo por companhia Ricardo Alexandre e Vânia Maia.

Todas as Conversas podem ser ouvidas no podcast do Clube de Jornalistas, no Spotify.