Início Conversas de Jornalistas Ferreira Fernandes nas Conversas de Jornalistas: “É uma honra ser enviado a...

Ferreira Fernandes nas Conversas de Jornalistas: “É uma honra ser enviado a um sítio qualquer, voltar e contar”

Foto: Inácio Ludgero

Realizou-se a 22 de julho a 7.ª edição das “Conversas de Jornalistas”, iniciativa do Clube que juntou, uma vez mais, três gerações da profissão: José Ferreira Fernandes, 78 anos, hoje cronista da Mensagem de Lisboa, José Manuel Mestre, 60 anos, repórter da SIC, e Andreia Friaças, 30 anos, colaboradora da RTP2 e do Público.

Foram quase duas horas de conversa, com moderação de Maria Flor Pedroso, transmitida em direto no YouTube com o apoio do Cenjor, e disponível em podcast para utilização por qualquer órgão de comunicação social, com a identificação do Clube de Jornalistas.

Perante uma plateia composta por muitos jornalistas de referência, refletiram sobre os percursos que os levaram ao jornalismo, os problemas atuais das redações e a importância de recuperar a reportagem, a observação e o contacto com as pessoas – ou, como disse Ferreira Fernandes, a necessidade de voltar a “olhar, ver e contar”.

Ao recordar o seu percurso, José Ferreira Fernandes recusou a ideia de um momento único que o tenha levado ao jornalismo. Para o escritor e cronista, a verdadeira escola foi a vida. “Aquilo que eu faço é determinado pelo facto de ter nascido no lugar onde nasci. Luanda, as pessoas, o momento em que vivi, o telúrio que aquilo tem e a lição que me deram de jornalismo.”

A sua definição da profissão foi repetida várias vezes durante a sessão: “Aquilo que me ensinou foi olhar, ver e contar.”

Ferreira Fernandes recordou a infância em Angola, as imagens que o marcaram e as leituras que fizeram a sua formação. “Eu lia o Cruzeiro e a Manchete. Lia o português mais bem escrito do jornalismo, como nunca se escreveu em Portugal.”

Foto: Inácio Ludgero

Também evocou o impacto da experiência em Paris após a deserção do Exército português durante a Guerra Colonial. “Em Paris foram cinco anos. Vi Paris, li muito, vi filmes, li jornais. Cheguei cá com 1800 doutoramentos. Foram mesmo doutoramentos: cinco anos a ler o mundo e tudo o que havia para ler.”

O jornalista defendeu que a essência da profissão continua a estar na capacidade de identificar aquilo que os outros não veem. “Isto é o que os jornalistas devem contar. Ponto.”

José Manuel Mestre: “O jornalismo é ir à rua ver se está a chover”

José Manuel Mestre recordou que a paixão pelo jornalismo nasceu cedo através da rádio. “Aos 13 anos queria ser jornalista. Ouvia muito rádio e apaixonei-me pelo jornalismo.”

Para o repórter da SIC, a grande missão da profissão continua a ser a mesma: “É conseguir mostrar aos outros o que estás a ver.”

Grande parte da sua intervenção foi dedicada às mudanças nas redações e ao que considera serem fragilidades do jornalismo contemporâneo.

“Hoje pegamos num comando, fazemos zapping e parece que estiveram todos na mesma reunião a planear as notícias das oito”, disse, criticando a uniformização dos noticiários.

“O jornalismo hoje conta muito pouco a realidade. Distanciou-se das pessoas. Não quer saber das pessoas.”

Criticou também o excesso de comentário e a escassez de reportagem. “Há um senhor que diz que está a chover e há outro que diz que está a fazer sol. Jornalismo não é ouvir os dois. Jornalismo é ir à janela ver se está a chover.”

Defendeu por isso mais investimento na investigação jornalística, porque “o papel do jornalismo não é ficar sentado, é ir à procura”.

Andreia Friaças: “Se os jornalistas se demitem da função de informar, outros o farão”

A jornalista da RTP2 explicou que o seu interesse pelo jornalismo nasceu de múltiplas influências, desde a música de intervenção ao programa Sinais, de Fernando Alves. “Não houve um único momento. Foram várias coisas que abriram mundo.”

Hoje dedicada ao público infantojuvenil através do programa Radar XS, na RTP2, considera que informar crianças é uma responsabilidade crescente. “As crianças estão expostas à informação. Se os jornalistas se demitem da função de as informar, outras pessoas o irão fazer.”

“Não alinho nada na ideia de que as crianças só têm estômago para notícias light”, disse, contrariando ideias feitas. “É possível explicar o que foi uma pandemia, o que está a acontecer na Palestina, o que está a acontecer na Ucrânia ou porque há eleições antecipadas.”

Andreia Friaças destacou também a precariedade das redações atuais. “Há salários baixíssimos, horas infinitas de trabalho, instabilidade laboral.” Ainda assim, sublinhou a resistência da profissão: “Há uma grande resistência dos jornalistas perante estas dificuldades. E há também uma luta em fazer um trabalho digno e um trabalho com qualidade.”

O jornalismo das pessoas comuns

Um dos temas centrais da conversa foi a necessidade de recuperar histórias de proximidade. José Ferreira Fernandes deu vários exemplos do trabalho da Mensagem de Lisboa e explicou aquilo que considera ser a obrigação fundamental de um jornalista.

Entre as histórias que gostaria de ver mais vezes nos jornais, referiu as mulheres da limpeza que chegam de madrugada a Lisboa para trabalhar. “Eu quero que o meu jornal vá agradecer a estas senhoras às cinco e meia da manhã.”

O cronista defendeu igualmente que os jornalistas devem criar espaço para ouvir cidadãos anónimos.

Nos momentos finais, José Manuel Mestre perguntou a José Ferreira Fernandes para quem escrevia. A resposta resumiu boa parte da filosofia que percorreu toda a conversa: “Eu escrevo para eu ler.”

E acrescentou: “O leitor é o cliente e tem de ser respeitado. Não se escreve para massas porque as massas não existem. Tem que se falar para cada um para juntar muitos.”

Esta foi a 7.ª sessão desta iniciativa que teve início em janeiro, com uma homenagem a José Carlos de Vasconcelos, com a participação de Pedro Coelho e Tatiana Felício. Em fevereiro, o foco esteve em Eugénio Alves, à conversa com Clara de Sousa e João Porfírio. Em março, Fernanda Mestrinho conversou com Miguel Carvalho e Sofia Craveiro. Em abril, ouvimos Cesário Borga, José Manuel Rosendo e Ana Tulha. Em maio foi a vez de Daniel Reis ser homenageado, tendo por companhia Ricardo Alexandre e Vânia Maia. Em junho, Ribeiro Cristóvão conversou com Rui Tavares Guedes e Cátia Bruno.

Todas as Conversas podem ser ouvidas no podcast do Clube de Jornalistas, no Spotify.

Notícia relacionada