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Maria Elisa nas Conversas de Jornalistas: “Vivemos numa sociedade almofadada, em que as pessoas não querem saber dos problemas verdadeiros”

Paulo Pena, Maria Flor Pedroso, Maria Elisa Domingues e Diogo Assunção, no Clube de Jornalistas. Foto: Inácio Ludgero

Homenageada na 8.ª sessão da iniciativa do Clube de Jornalistas, a antiga pivô e diretora de programas da RTP criticou os telejornais de duas horas, o excesso de comentadores e um jornalismo de investigação “devorado” pelo sensacionalismo e subjugado às guerras de audiências. Paulo Pena e Diogo Assunção juntaram a este naipe de problemas a falta de debate nas redações, a propriedade dos media e a precariedade.

Maria Elisa Domingues, 76 anos, foi a homenageada da 8.ª sessão das “Conversas de Jornalistas”, que se realizou a 30 de setembro no Clube de Jornalistas, em Lisboa. À mesa estiveram também dois Prémios Gazeta Revelação (em 2010 e 2021), Paulo Pena, 51 anos, da cooperativa Investigate Europe, e Diogo Assunção, 28 anos, repórter do canal Now, numa conversa que durou quase duas horas, moderada pela presidente do Clube, Maria Flor Pedroso.

Esta conversa, transmitida em direto com o apoio do Cenjor e que será posterioremente disponibilizada em formato podcast, pode ser utilizado por qualquer órgão de comunicação social, mediante identificação do Clube de Jornalistas, e mantém o modelo mensal que o Clube criou na sequência do 5.º Congresso dos Jornalistas: homenagear os mais antigos e cruzar três gerações da profissão, “com mais de 20 anos entre cada um”, como resumiu a moderadora.

Maria Elisa começou por elogiar o formato “feliz e fecundo” que o Clube encontrou para estas Conversas. “Tenho podido ver alguns dos podcasts e tenho aprendido imensas coisas com as pessoas mais novas, coisas de que não estou a par porque já estou retirada da profissão.”

Agradecendo o convite, não escondeu uma mágoa antiga. “Nem sempre fui bem tratada pela classe. Foram divulgadas notícias incríveis sobre mim sem eu nunca ter sido contactada. Estamos a falar de jornais de referência. Isso, para mim, foram facadas na minha ética profissional.”

“Se não fosse o 25 de Abril, teria sido atriz”

A homenageada estudava Medicina, queria ser psiquiatra e tinha ajudado a fundar o grupo de teatro “A Comuna” quando, em janeiro de 1973, entrou na RTP como locutora, por concurso público. “O clique [para a profissão] é o 25 de Abril, não há dúvida nenhuma. Se não fosse o 25 de Abril eu teria sido atriz, estou convencida”, disse Maria Elisa no início da sessão.

Maria Elisa Domingues estava em casa, com um filho de um mês, quando a direção da RTP lhe telefonou para fazer a cobertura do primeiro 1.º de Maio em liberdade. “Não consegui dizer que não.” Meses depois, foi uma das 40 pessoas selecionadas, entre 500 candidatos, para um curso intensivo no Centro de Formação de Jornalistas, em Paris. “Para mim teria sido impossível continuar a fazer aquilo que me pediam se não tivesse podido aprender as ferramentas.”

Paulo Pena chegou ao jornalismo “um pouco por acaso”, depois de uma visita à TSF no 12.º ano o ter afastado do Direito. Recordou a entrada na revista Visão, onde o então diretor, Carlos Cáceres Monteiro, lhe explicou que havia um salário mínimo na redação, equivalente a cerca de 1.700 euros de hoje: “É o que um jornalista precisa para fazer o seu trabalho, para comprar livros, para ir ao cinema, para ir ao teatro.”

Diogo Assunção, primeiro licenciado da família, descobriu a profissão em criança, diante da televisão. “O jornalismo para mim chega pelas histórias, por poder contar uma história e por poder dar voz a quem não tem voz. Acredito mesmo que a nossa profissão é maravilhosa”, disse.

Telejornais longos, comentadores a mais

Questionada sobre o que vê, ouve e lê, Maria Elisa começou pela duração dos telejornais. “É mais forte do que eu. Como é que isto pode ter uma hora e meia? Mas isto já vai em duas horas? Eu não conheço este modelo em parte nenhuma do mundo.”

Seguiram-se o “excesso de comentadores”, sinal de que os jornalistas estão a “abdicar do seu papel”, e o “mimetismo” dos canais generalistas, “cada um a dar as mesmas coisas às mesmas horas”.

A crítica mais dura foi para “o que hoje se chama jornalismo de investigação”. Para Maria Elisa, “está quase reduzido a sabermos se Luís Neves tem um tanque ou uma piscina, e pôr um drone qualquer, baratíssimo, amador, por cima da propriedade.”

“Faz-se muito pouco jornalismo de investigação a sério, o que se faz mais são escândalos”, considerou. “O conceito foi completamente devorado por um jornalismo sensacionalista, que não é investigação nenhuma”.

Não é só por falta de recursos financeiros que não se faz mais investigação ou reportagem, considerou. “Muitas vezes os repórteres estão lá, mas aquilo que lhes é dito para fazerem não tem nada a ver com o facto de eles estarem lá. Quantas vezes os noticiários dos fogos de verão não começam com uma peça do jornalista que está lá desde a véspera, mas sim com o popular a chorar… Prefere-se essa coisa imediatista, sentimental, emocional, de abrir com um popular a dizer uma coisa que não acrescenta nada e não nos dá a visão de conjunto do que se passa.”

Considerou haver pouca cobertura dos “graves problemas sociais do país”, e criticou também a falta de acompanhamento da execução dos orçamentos e dos programas de governo, por exemplo.

“Vivemos numa sociedade almofadada e facilitista, em que as pessoas não querem saber dos problemas verdadeiros”, lamentou, frisando, porém, que “há uma responsabilidade social que nós [jornalistas] também declinamos ao não tratarmos dos problemas”.

“Temos de ter um papel cívico, acredito profundamente nisso.” Mas essa é uma missão que, reconheceu, não está dependente apenas do brio profissional dos jornalistas. “Acho que a culpa é muito mais de quem dá as instruções e depois faz os alinhamentos. Muitas vezes tenho a impressão de que [os jornalistas] estão lá e não os deixam fazer outras coisas, não os deixam desenvolver mais e investigar mais. É disso que tenho pena, porque acho que fazia muita falta.”

“Métrica do medo” e redações sem debate

Paulo Pena subscreveu o diagnóstico. “As televisões regem-se por uma métrica do medo e da ansiedade coletiva”, lamentou, lembrando que o documentário do Investigate Europe para a RTP sobre o rearmamento europeu chegou a 900 mil espectadores: “As pessoas podem estar interessadas pelos temas que não estão nos alinhamentos.”

Defendendo redações com “muitas proveniências” e “muitas experiências sociais”, lembrou que para conquistarem novas audiências os meios de comunicação social deveriam “fazer diferente” da concorrência. Mas “essa diferença está hoje cada vez mais esbatida.”

O jornalista considerou “gravíssimo” o problema da propriedade dos meios de comunicação social em Portugal – “mas ninguém fala sobre ele” – e contestou a promessa dos canais de informação. “‘Nós damos 24 horas de notícias por dia’: isso não existe.” Em 2020, contou, o Diário de Notícias tinha uma redação de 20 pessoas e publicava, em média, 200 notícias por dia no site.

“Quem dirige as redações criou esta ficção de que uma batalha de comentadores está a cobrir o espectro político todo e, portanto, toca de os contratar, e assim estamos a fazer a nossa obrigação”, lamentou. “A nossa função é dar às pessoas a informação de que precisam para tomar as suas próprias decisões, e não estar a informá-las de maneira a criar uma repetição na sua cabeça.”

Diogo Assunção criticou também os “tudólogos”, que “tiram espaço aos jornalistas” e o emagrecimento das redações, onde os mais novos “são completamente atropelados e mastigados pela máquina”. A precaridade condiciona também o trabalho dos mais jovens, considera. “Nós não podemos dar-nos ao luxo de perder um trabalho ou de perder a nossa estabilidade, porque a situação é muito complicada. Há cada vez menos emprego no jornalismo, e há cada vez menos emprego bem pago, ou decentemente pago, no jornalismo.”

A discussão interna, disse ainda, “não está democratizada”. Acrescentou o problema do efeito das redes sociais: “Hoje os políticos sentem que podem ter o controlo da narrativa e que não precisam de nós para falar para o seu auditório.”

Maria Flor Pedroso resumiu o que ouvia: “Deixámos de pensar coletivamente o nosso trabalho. O jornalismo sem reflexão empobrece.”

Na parte final, os três encontraram bons exemplos. Paulo Pena citou a Mensagem de Lisboa, o Fumaça, o Shifter, a Divergente e o Gerador, projetos “de uma escala ainda muito pequena”, e pediu “uma conversa séria sobre financiamento público da informação”, dirigido aos jornalistas e não às empresas.

Diogo Assunção sugeriu que as plataformas de streaming, que já coproduzem ficção com as televisões portuguesas, passem também a cofinanciar documentários e grandes reportagens.

À pergunta habitual sobre qual o tema de abertura que escolheriam para um jornal, Diogo Assunção e Maria Elisa apontaram o mesmo: habitação. A homenageada faria “uma semana” de reportagens diárias, antes e depois da discussão parlamentar da lei do arrendamento. “Se todos os dias nós batêssemos nos problemas da habitação, isso tinha ou não tinha algum efeito sobre aquilo que é aprovado no Parlamento? Há uma responsabilidade social que nós também declinamos ao não tratarmos dos problemas.” Paulo Pena escolheria o rearmamento da Europa.

A próxima sessão das “Conversas de Jornalistas” está já marcada para 28 de outubro, às 18h00, para homenagear José Pedro Castanheira.

Em janeiro, o homenageado foi José Carlos de Vasconcelos, com a participação de Pedro Coelho e Tatiana Felício. Em fevereiro, o foco esteve em Eugénio Alves, à conversa com Clara de Sousa e João Porfírio. Em março, Fernanda Mestrinho conversou com Miguel Carvalho e Sofia Craveiro. Em abril, ouvimos Cesário Borga, José Manuel Rosendo e Ana Tulha. Em maio foi a vez de Daniel Reis ser homenageado, tendo por companhia Ricardo Alexandre e Vânia Maia. Em junho, e em tempo de Mundial de Futebol, Ribeiro Cristóvão esteve à conversa com Rui Tavares Guedes e Cátia Bruno. Em julho juntámos José Ferreira Fernandes, José Manuel Mestre e Andreia Friaças.

Todas estas Conversas podem ser ouvidas no podcast do Clube de Jornalistas, no Spotify.