O jornalismo tem-se confrontado com inúmeros desafios e transformações nas últimas décadas, não só pela evolução tecnológica e digital, mas também pelos constrangimentos estruturais no negócio dos média, que se carateriza, atualmente, pela crescente concentração da propriedade e por um visível colapso dos modelos de negócio.
A degradação das condições de trabalho, a precariedade e a violência contra os jornalistas podem contribuir para o esforço emocional, tendo impacto na sua saúde física e mental, no bem-estar e qualidade de vida, mas também na qualidade do próprio jornalismo.
Embora muitas destas dimensões decorram de problemas estruturais da indústria dos média, como o declínio de vendas e da receita publicitária, há aspetos contextuais que contribuem para um agravamento. A pandemia de COVID-19 foi um desses momentos, e vários inquéritos aos jornalistas deixavam, já, antever uma crescente deterioração das condições em que o jornalismo estava a ser exercido (Araújo et al., 2023; Camponez et al., 2020). No entanto, não existiam, ainda, dados que nos permitissem compreender o esforço emocional dos jornalistas e a sua relação com as dimensões aqui enunciadas.
Este estudo teve como objetivo perceber as perceções dos jornalistas portugueses relativamente ao esforço emocional na prática diária, as suas causas, consequências, e a existência de estratégias de suporte. Para isso, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com 50 jornalistas provenientes de vários tipos de meios de comunicação.
Os resultados dão conta de uma realidade preocupante, e que nos deve fazer refletir enquanto sociedade. Jornalistas precários não são jornalistas livres, tal como não o são os jornalistas que temem pela sua segurança.
Pedro Caldeira Rodrigues. Foto: Clube de Jornalistas
Inaugura esta quarta-feira, dia 1 de julho, a exposição “Fotógrafo Improvável”, que reúne fotografias de Pedro Caldeira Rodrigues, jornalista de Política Internacional, fundador do Público em 1990 e desde 2011 na Agência Lusa, vencedor do Prémio Gazeta de Imprensa 2022, com as suas reportagens na Ucrânia.
Sem nunca ter procurado construir uma carreira fotográfica, Pedro Caldeira Rodrigues foi construindo um vasto arquivo visual dos conflitos que cobriu ao longo das últimas décadas, em vários pontos do mundo, mas também de outros momentos significativos da sua vida.
Nesta exposição mistura-se o interrail da sua juventude ao Círculo Polar Ártico com os rostos do fim da Jugoslávia ou da resistência em Chiapas e da inocência em Timor Lorosae. A dureza da guerra da Ucrânia, da dívida soberana na Grécia ou da era Erdogan, na Turquia, com momentos de evasão nos Andes.
Com curadoria do fotógrafo Reinaldo Rodrigues, a exposição inaugura a rubrica “Fotógrafo Improvável”, iniciativa conjunta da Casa de Imprensa e Associação CC11, que anualmente promete apresentar o trabalho fotográfico de uma pessoa de outra área profissional mas “cujo percurso visual merece ser descoberto e apresentado em contexto expositivo”.
A exposição inaugura a 1 de julho, às, 18h00 e ficará patente até 18 de setembro na sede da Casa da Imprensa (nº 20 da Rua da Horta Seca, em Lisboa). A entrada é livre.
A perda de credibilidade do jornalismo, a pressão da concorrência e a urgência de recuperar a confiança do público foram os temas dominantes na 6.ª sessão das “Conversas de Jornalistas”. Ribeiro Cristóvão foi o homenageado a 24 de junho, concretizando o mote do Clube nos seus 40 anos: “Lançar ideias, premiar os melhores, juntar jornalistas de todas as gerações”.
Juntaram-se-lhe Rui Tavares Guedes e Cátia Bruno, numa conversa com moderação de Maria Flor Pedroso, transmitida em direto no YouTube com o apoio do Cenjor, e disponível em podcast para utilização por qualquer órgão de comunicação social, com a identificação do Clube de Jornalistas.
Ribeiro Cristóvão, figura histórica da rádio portuguesa, considera que a intensificação da concorrência teve impacto direto na qualidade da informação. “Hoje há uma avidez enorme para chegar primeiro à notícia do que o nosso vizinho do lado. Isso às vezes leva‑nos a cometer algumas imprecisões”, disse, sublinhando a diferença face ao passado. “Antigamente as coisas eram trabalhadas com mais calma; hoje este jornalismo é mais rápido, é mais veloz”.
O jornalista lembrou uma época em que a confirmação das fontes era essencial: “Eu não permitia que fossem dadas notícias sem as fontes serem bem contactadas e cruzadas.”
Ao recordar a experiência na “Bola Branca”, destacou que era também isso que fazia a diferença: “Procurámos inserir sempre uma grande seriedade na informação. Ser rigoroso nas notícias, confirmar bem as fontes e cruzar a informação. Se a ‘Bola Branca’ dizia, era porque era verdade.”
Por isso, Ribeiro Cristóvão considera que hoje a abundância de informação não significa melhor jornalismo. “Hoje há uma diversidade muito grande de informação e sobretudo uma grande concorrência”, afirmou, mas “às vezes fica‑se a ver horas a fio as traseiras dos autocarros e a ouvir comentários que não acrescentam nada”.
Ainda assim, reconhece evolução no setor: “Hoje a informação está muito mais desenvolvida e tem profissionais com muita capacidade, há muita gente nova a fazer bem ou a tentar fazer bem.”
Para Rui Tavares Guedes, diretor da revista Visão, o problema central não está apenas na atenção do público, mas na credibilidade da informação. “A principal batalha do jornalismo hoje, mais do que a da atenção, devia ser a de restaurar a confiança”, afirmou, alertando que os jornalistas se estão a aproximar excessivamente de modelos de entretenimento digital.
“Ao tentar correr atrás de tudo, estamos a transformar‑nos iguais aos criadores de conteúdos”, disse, sublinhando que isso pode ser contraproducente: “Quando entramos nesse caminho, perdemos”.
O jornalista defendeu que o rigor deve voltar a ser o principal fator distintivo: “Aquilo que nos tem que distinguir é a veracidade. Quando a notícia ali era dada era de confiança — isso é que nos deve distinguir”.
Do ponto de vista internacional, Cátia Bruno, jornalista do Observador, apontou para outro problema: a incapacidade dos media acompanharem fenómenos complexos. “Estamos sempre a ir atrás do que determinada figura política disse naquele dia”, afirmou, referindo‑se à cobertura de Donald Trump. “Andamos atrás de migalhas que não significam nada”.
Para a jornalista, isso compromete a compreensão global dos temas: “Temos de encontrar ângulos que ajudem a perceber melhor o contexto, em vez de transmitir apenas mensagens”.
Também destacou a importância de humanizar os acontecimentos: “O jornalismo tem o poder de fazer com que, ao olhar para um milhão, as pessoas se lembrem que há um milhão de vidas”.
Redações mais pequenas e menos debate
Outro ponto comum foi a transformação das redações, hoje mais pequenas e fragmentadas. “Há muito menos tempo para discutir do que deveria”, admitiu Cátia Bruno, que trabalha com uma equipa reduzida. “O jornalismo não é uma profissão que se faça no silêncio”.
Rui Tavares Guedes acrescentou que a pressão do dia a dia limita a reflexão: “Está tudo a correr na roda do ratinho, a tentar preencher espaço e chamar atenção”. Essa falta de tempo para pensar pode, segundo os participantes, contribuir para a uniformização dos conteúdos.
“Muitas vezes vai tudo a correr atrás do que o vizinho está a falar”, disse Rui Tavares Guedes, defendendo que os jornalistas devem apostar mais em temas próprios. “Há uma agenda da vida das pessoas que nem sempre coincide com a agenda mediática”, lembrou.
Apesar de tudo, e dos baixos salários e redações pequenas, “continua a ser feito jornalismo de muita qualidade”, sublinhou Cátia Bruno.
Para Rui Tavares Guedes, o caminho passa por assumir uma nova escala. “Já não somos mass media. Essa batalha perdemo‑la”, considera. A solução passará por adaptar estruturas e focar‑se no valor acrescentado. Porque, recorda, “a função do jornalismo neste momento é dar valor acrescentado em relação à informação”.
Já Ribeiro Cristóvão mantém uma visão pragmática, valorizando o papel contínuo dos media tradicionais: “A televisão tornou‑se uma companhia indispensável para toda a gente”.
Com percursos que vão dos 36 aos 86 anos, os participantes sublinharam a importância de cruzar gerações. “Temos de aprender uns com os outros”, afirmou Maria Flor Pedroso, destacando a missão do Clube de Jornalistas de “cruzar experiências e pensar em conjunto”.
No final, Ribeiro Cristóvão deixou uma nota pessoal sobre a profissão: “Estou grato às pessoas que me transmitiram confiança ao longo dos anos”.
E deixou implícita a principal lição do encontro: num tempo de excesso de informação, o futuro do jornalismo passa por recuperar aquilo que o tornou relevante: rigor, contexto e credibilidade.
Esta foi a 6.ª sessão desta iniciativa que teve início em janeiro, com uma homenagem a José Carlos de Vasconcelos, com a participação de Pedro Coelho e Tatiana Felício. Em fevereiro, o foco esteve em Eugénio Alves, à conversa com Clara de Sousa e João Porfírio. Em março, Fernanda Mestrinho conversou com Miguel Carvalho e Sofia Craveiro. Em abril, ouvimos Cesário Borga, José Manuel Rosendo e Ana Tulha. Em maio foi a vez de Daniel Reis ser homenageado, tendo por companhia Ricardo Alexandre e Vânia Maia.
O podcast “País de incendiários”, de Sofia da Palma Rodrigues e Manuel Bivar, da Divergente, venceu o Prémio de Jornalismo Rei de Espanha 2025/2026, na categoria Meio Ambiente.
Atribuídos desde 1983 a trabalhos de jornalistas de países ibero-americanos, em língua espanhola e portuguesa, os Prémios Internacionais de Jornalismo Rei de Espanha são organizados pela agência de notícias espanhola EFE e pela Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID).
Felipe VI entregou os prémios a 22 de junho, numa cerimónia na Casa América, em Madrid.
O júri da 43.ª edição distinguiu trabalhos em seis categorias, com um prémio de 10 mil euros cada, e atribuiu a “País de incendiários” o prémio de Meio Ambiente, a que se candidataram 60 trabalhos.
O júri destacou que o podcast aprofunda de forma rigorosa o tema dos incêndios, num trabalho de “constante atualidade”, com um guião e execução “que prende” quem o ouve, depois de uma viagem por Portugal para fazer o retrato do pirómano, analisando as causas estruturais dos fogos e o impacto das alterações climáticas, bem como os problemas de saúde mental, alcoolismo e revolta contra o sistema.
Em declarações à Lusa em Madrid, depois de ter recebido o prémio das mãos do Rei de Espanha, Sofia da Palma Rodrigues sublinhou a importância de um galardão como este para a sustentabilidade e projeção da Divergente, um projeto “pequeno e de jornalismo independente e jornalismo lento”, que dedica “o tempo necessário a ouvir as pessoas” para contar as histórias que pretende.
Com a Divergente foram distinguidos trabalhos de jornais como o El País e Washington Post.
Os Prémios Internacionais Rei de Espanha de Jornalismo 2025/2026 distinguiram outros cinco trabalhos nas categorias de Meio de Comunicação Ibero-Americano, Jornalismo Narrativo, Cooperação Internacional e Ação Humanitária; Cultura e Fotografia.
O Meio de Comunicação Ibero-americano distinguido foi a plataforma digital brasileira “Aos Factos”, focada na verificação de factos, e que conseguiu que fossem retiradas publicações enganosas da rede social TikTok e vídeos que sexualizavam adolescentes das plataformas da Meta.
O prémio Jornalismo Narrativo foi para o podcast da Cadena SER “Assistolia, a morte desde dentro”, coordenado pelos jornalistas Aimar Bretos e Víctor Olazábal.
A equipa de investigação de El Universal, do México, venceu em Cooperação Internacional e Ação Humanitária com um trabalho sobre as mortes por afogamento de migrantes que tentavam alcançar os EUA através do rio Bravo, feito em colaboração com a plataforma de jornalismo Lighthouse Reports e o jornal Washington Post.
Na categoria Cultura, venceu a revista Contracultura, das Honduras, que, como realçou o júri, deu o salto para o papel num tempo dominado pela Inteligência Artificial, com uma grande diversidade de temas e expressões artísticas.
O prémio de Fotografia foi para Óscar Corral, por uma imagem publicada no El País, captada numa localidade de Valência durante as inundações de outubro de 2024, quando morreram mais de 230 pessoas.
Na quarta-feira, 24 de junho, às 18h00, homenageamos Ribeiro Cristóvão naquela que será a 6.ª edição das “Conversas de Jornalistas”, iniciativa que concretiza o mote do Clube nos seus 40 anos: “Lançar ideias, premiar os melhores, juntar jornalistas de todas as gerações”.
Em tempo de Mundial de Futebol, vamos ouvir as histórias deste jornalista com uma vida profissional intensa, sobretudo na Rádio, mas também na Televisão. O homem que começou na Rádio Clube de Huambo, em Angola, para depois brilhar na Rádio Renascença, primeiro como Repórter Parlamentar e só depois com o “Bola Branca”, que o tornou numa voz familiar dos portugueses. Na RTP, do “Girabola” ao “Domingo Desportivo”, Ribeiro Cristóvão formou gerações.
Juntam-se-lhe Rui Tavares Guedes, jornalista da Rádio Comercial em meados dos anos 80, que da Capital saltou para a experiência única da revista Visão, e Cátia Bruno, com um percurso do í ao Expresso, e agora no Observador, a tentar perceber o mundo.
Uma conversa a três com moderação deMaria Flor Pedroso, que será gravada e transformada em podcast, ficando depois disponível para utilização por qualquer órgão de comunicação social, com a identificação do Clube de Jornalistas.
Ao longo de duas horas, haverá espaço para falar sobre o trabalho de cada um, identificando o que foi determinante nas suas vidas profissionais, e como vêem o jornalismo que se faz hoje na imprensa escrita e falada.
Onde estamos a falhar, porque estamos a chegar a menos pessoas? Quando e como é que perdemos a nossa credibilidade? Ou a nossa dignidade? Porque tem sido perdido o controlo editorial para o poder político e económico? Quais as boas experiências e práticas que estão a acontecer e que nos entusiasmam? Este é um ponto de partida possível para percebermos o que está nas nossas mãos melhorar, exigir e não desistir.
Em janeiro, o homenageado nas “Conversas de Jornalistas” foi José Carlos de Vasconcelos, com a participação de Pedro Coelho e Tatiana Felício. Em fevereiro, o foco esteve em Eugénio Alves, à conversa com Clara de Sousa e João Porfírio. Em março, Fernanda Mestrinho conversou com Miguel Carvalho e Sofia Craveiro. Em abril, ouvimos Cesário Borga, José Manuel Rosendo e Ana Tulha. Em maio foi a vez de Daniel Reis ser homenageado, tendo por companhia Ricardo Alexandre e Vânia Maia.
Fátima Valente (de vermelho) recebeu o Prémio Jornalismo em Saúde pela reportagem que fez na TSF sobre a luta dos doentes com Ataxia de Friedriech para terem acesso ao único medicamento existente para tratar esta condição rara.
Na quarta-feira, 17 de junho, a jornalista Fátima Valente recebia no Clube de Jornalistas o Prémio Jornalismo em Saúde, na categoria de Rádio, pela reportagem “Ataxia de Friedriech – À Espera do Medicamento Que Já Existe”, emitida na TSF. Dois dias depois, o Infarmed dava aos portadores desta doença rara a notícia mais esperada: o único medicamento conhecido para tratar esta condição foi aprovado e vai ser disponibilizado pelos hospitais portugueses, sem custos para os doentes.
“Houve choro, da minha parte e dos doentes… foi melhor do que ganhar a lotaria”, afirmou à TSF a presidente da Associação Portuguesa de Ataxias Hereditárias, Célia Costa.
O Infarmed concluiu que “o medicamento órfão Skyclarys, cuja substância ativa é a omaveloxolona, é indicado no tratamento da doença rara, de causa genética”, a partir da adolescência (16 anos). O novo medicamento não cura a doença, mas ajuda a retardar danos progressivos no sistema nervoso, como dificuldades na fala e nos movimentos.
A 41ª. edição dos Prémios Gazeta, os mais prestigiados do jornalismo português, que o Clube de Jornalistas atribui desde a sua fundação, em 1984, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, manterá candidaturas abertas até 30 de junho.
Na edição deste ano tinha sido determinada a entrega dos trabalhos a concurso entre 19 de maio e 20 de junho, mas a direção entendeu estender o prazo até final do corrente mês.
Os trabalhos têm obrigatoriamente de ter sido publicados durante o ano de 2025 e assinados por jornalistas com carteira profissional válida.
Os Gazeta são atribuídos em oito categorias: Prémio Gazeta de Mérito; Prémio Gazeta de Imprensa; Prémio Gazeta de Televisão; Prémio Gazeta de Rádio; Prémio Gazeta de Fotografia; Prémio Gazeta Multimédia; Prémio Gazeta Revelação e Prémio Gazeta de Imprensa Regional.
Premiados da 10.ª edição do Prémio Jornalismo em Saúde, na sede do Clube de Jornalistas
A cerimónia de entrega dos Prémios Jornalismo em Saúde (10.ª edição), iniciativa promovida pela APIFARMA em parceria com o Clube de Jornalistas, decorreu a 17 de junho e reuniu profissionais, instituições e académicos na valorização do papel determinante do jornalismo nesta área, não apenas como veículo de informação fidedigna, mas também como instrumento de empatia, escrutínio e transformação social.
Na abertura, a presidente do Clube de Jornalistas, Maria Flor Pedroso, sublinhou a importância da parceria com a APIFARMA para premiar os trabalhos de excelência dos jornalistas desta área, tão importante para todos os cidadãos, reforçando que “a missão dos jornalistas é perguntar e explicar como tudo acontece”.
“Foi João Almeida Lopes, juntamente com o saudoso Mário Zambujal, quem teve, há mais de uma década, a visão de unirmos experiências para criar um prémio dedicado ao jornalismo na área da saúde”, lembrou. “A APIFARMA, quase a celebrar 90 anos, e o Clube de Jornalistas, com mais de 40 anos, mantêm uma relação de excelência”, disse, agradecendo a continuação deste trabalho em conjunto, “sempre ao serviço do melhor jornalismo e da defesa do Serviço Nacional de Saúde”.
Maria Flor Pedroso, presidente do Clube de Jornalistas
O presidente da APIFARMA, João Almeida Lopes, também recordou Mário Zambujal, que nos deixou há poucos meses, pedindo simbolicamente um momento de silêncio em sua memória.
Depois, reforçou a dimensão humana desta iniciativa, destacando que este ano, uma vez mais, os trabalhos premiados “têm um carácter humano, de proximidade às pessoas e às suas debilidades”, e que contribuir para atenuar o sofrimento e aproximar‑se dos mais fragilizados é “extremamente meritório”.
João Almeida Lopes, presidente da APIFARMA
Distinguida com o Prémio Carreira pelo seu contributo para o jornalismo de saúde, Helena Neves Marques, da Agência Lusa, descreveu o galardão como “o reconhecimento do trabalho de uma vida”. No seu entendimento, ser jornalista é “uma missão, nem que seja só para mudar a vida de alguém para melhor”. A jornalista destacou ainda a dimensão coletiva da profissão, repartindo o seu prémio com os seus camaradas de redação, e agradecendo de forma especial o reconhecimento a quem trabalha num contexto mais “anónimo”, típico das agências de notícias.
Sofia Neves (com Cátia Mendonça, Gabriela Pedro, Francisco Lopes, Manuel Roberto e Daniel Rocha), vencedora do Grande Prémio, com “Dislexia – Aprender com um cérebro que nos prega partidas”, publicado no Público, explicou que o trabalho premiado nasceu “da vontade de conhecer melhor a realidade das crianças, jovens e adultos que a dislexia continua a afetar”. No discurso, sublinhou que “a dislexia não é preguiça, não é falta de inteligência”, defendendo que se trata de “uma condição real que exige respostas concretas”. Destacou ainda o papel do jornalismo, que deve “dar visibilidade a problemas que muitas vezes passam despercebidos” e contribuir para aproximar conhecimento científico da sociedade.
Raquel Albuquerque e Sofia Miguel Rosa, vencedoras na categoria de Imprensa, pelo trabalho “Mortalidade chega a ser o dobro entre concelhos”, publicado no Expresso, explicaram que o seu trabalho teve como objetivo analisar desigualdades territoriais, mostrando que “a mortalidade não se mostra da mesma maneira em todo o território” e que “o código postal é um determinante importante para a probabilidade de morrer mais cedo”, alertando para disparidades que exigem mais investigação e intervenção.
Ana Sousa e Cláudia Alves Mendes, com José Guerreiro e Nelson Santos, vencedoras do Prémio Digital com o trabalho “Às vezes é preciso convencer de que se está doente: a língua como barreira na jornada dos imigrantes no SNS”, divulgado na TSF, destacaram a importância de dar voz às populações imigrantes, explicando que o trabalho surgiu da necessidade de “tentar humanizar o discurso” sobre o acesso à saúde e mostrar também como as barreiras linguísticas são um dos principais obstáculos no Serviço Nacional de Saúde.
Na categoria Rádio, Fátima Valente e André Tenente, autoras de “Ataxia de Friedriech – À Espera do Medicamento Que Já Existe”, emitido na TSF, sublinharam que distinções como esta “fazem acreditar que vale a pena insistir” em reportagens exigentes. Referiram ainda a realidade dos doentes que aguardam tratamentos, descrevendo casos de pessoas “à espera de um medicamento que pode melhorar muito a qualidade de vida”, evidenciando a urgência dos temas abordados.
Paula Martinho da Silva (com David Araújo e Maria Queirós) destacou que a reportagem vencedora da categoria Televisão, “A Aldeia Onde o Esquecimento Pode Viver”, transmitido na RTP (Linha da Frente), procurou “olhar para o Alzheimer para lá do diagnóstico”, reafirmando que “cada pessoa é muito mais do que a sua doença”.O trabalho focou‑se num modelo inovador de cuidados, promovendo valores como “liberdade, dignidade e qualidade de vida” para pessoas com demência.
Sónia Calheiros explicou que o seu trabalho, “Imunidade: Como reforçar o nosso exército”, publicado na revista Visão e vencedor do Prémio Temático (Saúde e Bem-Estar), partiu da ideia de que “o nosso sistema imunitário é robusto, mas precisa de ser cuidado”.Defendeu ainda que “ao cuidarmos do sistema imunitário estamos a fazer prevenção”, destacando o papel da informação na promoção da saúde pública.
As estudantes Liliana da Silva Costa e Sofia Martins, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, vencedoras do Prémio Universitário Revelação com o “Dossiê da Saúde Feminina”, afirmaram que o projeto surgiu devido à falta de informação sobre saúde feminina, procurando “falar de temas que as pessoas não conhecem bem”.Sublinharam ainda que muitas mulheres “demoram anos a obter diagnóstico”, enfrentando dor e impacto significativo no dia a dia.
O Júri do Prémio Jornalismo em Saúde APIFARMA/Clube de Jornalistas foi este ano composto pelos jornalistas Cesário Borga, que presidiu em nome do Clube de Jornalistas, António Borga, jornalista de reconhecido mérito, Carlos Lobato, pela Casa de Imprensa, o médico Jorge Penedo e o enfermeiro António Santos, pela APIFARMA.
O “Prémio APIFARMA/Clube de Jornalistas – Jornalismo em Saúde” tem um valor total de 23.500 euros, distribuído pelas diferentes categorias e pelo Prémio Carreira, que é atribuído por escolha do júri e não está sujeito a concurso, resultando de um protocolo assinado entre as duas entidades, em 2016, com os objetivos de aprofundar o papel da APIFARMA enquanto parceiro ativo da Sociedade Civil e contribuir para a vitalidade do projeto Clube de Jornalistas.
A Associação Portuguesa de Imprensa promove no dia 19 de junho, no Museu da Vila Velha, em Vila Real, a terceira e última sessão das Jornadas Técnicas da Imprensa Regional 2026.
O encontro reunirá jornalistas, editores, académicos e especialistas para debater o impacto da inteligência artificial e da transformação digital no futuro dos media.
A participação é gratuita, mas sujeita a inscrição prévia.
Depois das sessões realizadas no Fundão e em Lisboa, o ciclo termina em Vila Real, numa sessão realizada com o apoio do Município de Vila Real e do Museu da Vila Velha, centrada na inteligência artificial, inovação editorial e transformação digital dos meios de comunicação social.
PROGRAMA
A sessão terá início às 10h30 com a intervenção de abertura de Cláudia Maia, presidente da Direção da API.
O programa integra a participação de Ana Santos Gomes, da DECO PROteste, que apresentará a comunicação “Inteligência Artificial nas Redações”, partilhando a experiência da organização na utilização destas ferramentas.
Segue-se Anabela Carvalho, chefe de redação do jornal O Gaiense, que irá abordar o tema “Inovação editorial e proximidade com as comunidades”, dando a conhecer algumas das iniciativas e estratégias desenvolvidas por aquele órgão de comunicação social para reforçar a ligação aos seus leitores e diversificar a sua atividade.
A ligação ao meio académico será assegurada por Hugo Paredes, professor catedrático da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e investigador coordenador do INESC TEC. Especialista em Inteligência Artificial Centrada no Humano, apresentará a comunicação “E se o teu próximo colega de redação for um algoritmo? Explicabilidade, supervisão e o comando editorial na era da IA”, refletindo sobre os desafios e oportunidades da integração da inteligência artificial nas redações.
A encerrar o programa estará Jacinto Godinho, jornalista, autor e realizador da RTP, distinguido com o Prémio Gazeta de Televisão em 2024 e finalista do Prémio Gabo em 2025. Com uma carreira de mais de três décadas dedicada à grande reportagem, ao documentário e ao jornalismo de investigação, irá refletir sobre “O Jornalismo e os desafios da Inteligência Artificial”.
Com esta sessão, a API conclui o ciclo das Jornadas Técnicas da Imprensa Regional 2026, uma iniciativa que passou pelo Fundão, Lisboa e agora Vila Real, promovendo a partilha de conhecimento e o debate sobre alguns dos principais desafios que se colocam atualmente à comunicação social portuguesa.
Os finalistas do European Press Prize 2026, na Gulbenkian, em Lisboa. Foto: EPP
A cerimónia de entrega do European Press Prize 2026 realizou-se a 3 de junho na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Os seis vencedores, selecionados entre mais de 800 candidaturas de 44 países, são “a prova da persistência, da coragem e do compromisso com o serviço público que definem o melhor jornalismo atual”, considerou a presidente do júri, Natalie Nougayrède.
Os trabalhos selecionados, acrescentou, são “uma montra inspiradora de reportagens tenazes e com espírito cívico”, frisando que este prémio “celebra jornalistas que mergulham fundo em realidades complexas e nos ajudam a conectar os pontos num momento de choques e transformações vertiginosas”.
Este é um dos prémios internacionais mais prestigiados e celebra a excelência do jornalismo europeu. É possível graças a diversas fundações e organizações que se empenham em incentivar o jornalismo independente e de qualidade na Europa: Stichting Democratie en Media, Stichting Veronica, Jyllands-Posten Fonden, Politiken Fonden, The Scott Trust, Robert Bosch Foundation, iMEdD – Incubator for Media Education and Development, The Irish Times Trust e Media Development Investment Fund.
Cada vencedor recebeu 10 000 euros para financiar projetos pessoais que contribuam para o enriquecimento do panorama mediático europeu.
A cerimónia de entrega do European Press Prize foi este ano realizada em Lisboa, na Gulbenkian. Foto: EPP
O Prémio de Reportagem de Destaque foi concedido aos jornalistas holandeses Maud Effting e Willem Feenstra, do jornal De Volkskrant, pela reportagem “O que as feridas nos dizem”. Baseada em depoimentos e documentos de profissionais médicos internacionais que atuam em Gaza, a investigação examinou evidências coletadas em hospitais e clínicas durante o conflito em curso.
O que os jurados disseram: “Um trabalho impressionante que combina a coleta de dados com retratos profundamente humanos dos médicos. A caracterização desses médicos como as ‘últimas testemunhas oculares internacionais’ é significativa. Um projeto muito rigoroso, especialmente considerando o contexto em que o acesso é quase impossível.”
O Prémio de Inovação foi concedido à CIVIO, de Espanha (Ángela Bernardo, María Álvarez del Vayo, Carmen Torrecillas, Adrián Maqueda), pela sua investigação sobre um sistema de deteção de cancro da pele baseado em inteligência artificial utilizado na saúde pública. A reportagem revelou sérias preocupações quanto à precisão do algoritmo e à falta de transparência na sua implementação, destacando questões mais amplas sobre responsabilidade à medida que a inteligência artificial se torna cada vez mais presente nos serviços públicos.
O que os jurados disseram: “Trabalho excepcional. Um ótimo exemplo de investigação jornalística de dados com metodologia clara. A Civio é conhecida pelas suas investigações de transparência algorítmica e, desta vez, não decepciona. A utilidade de suas reportagens também é indiscutível.”
O jornalista irlandês Michael O’Farrell recebeu o Prémio de Reportagem Investigativa por “A Conspiração do Irmão D”, uma investigação de uma década sobre o encobrimento de denúncias de abuso infantil e as falhas institucionais que permitiram que o abuso continuasse por anos.
O que os jurados disseram: “Um trabalho fantástico de um veículo de comunicação local com enorme impacto, que é o culminar de um longo esforço de investigação. Este foco constante e preciso numa questão importante é o que gera mudanças e é muito louvável.”
O Prémio de Jornalismo sobre Migração reconheceu uma investigação transfronteiriça realizada por jornalistas da Grécia e da Suíça: Solomon (Lydia Emmanouilidou, Corina Petridi, Luděk Stavinoha, Stavros Malichudis, May Bulman, Iliana Papangeli, Galatia Iatraki), Republik (Lorenz Naegeli, Lukas Haeuptli) e WAV Recherchekollektiv (Osama Abdullah) investigaram as condições enfrentadas por crianças desacompanhadas em campos de refugiados nas ilhas gregas. Com insistentes pedidos de acesso à informação, documentos internos e extensa reportagem de campo, a investigação documentou a superlotação, o atendimento inadequado e as significativas discrepâncias entre os compromissos políticos e a realidade vivida.
O que os juízes disseram:“Uma investigação bem executada que se tornará uma importante prova ao estudarmos este período. O relatório institucional é robusto, devastador em seus relatos e revelador para a compreensão de tantas maneiras pelas quais crianças solicitantes de asilo podem ser negligenciadas.”
O segundo lugar nesta categoria foi para o quebra-cabeça de Hamshika, criado por Hamshika Krishnamoorthy, Hannah Kirmes-Daly, Leon Spring e Benja Zehr da Al Jazeera, que narra como uma mulher do Sri Lanka, que buscava asilo no Reino Unido, acabou no Ruanda.
A alemã Kerstin Kohlenberg recebeu o Prémio de Discurso Público por “De novo, não!”, uma análise dos desenvolvimentos políticos na Alemanha sob a perspectiva da sua experiência como repórter nos Estados Unidos.
O que os jurados disseram: “Uma obra muito bem pesquisada que realmente nos faz refletir. A autora tem um olhar maravilhoso para os detalhes ao descrever os personagens, e o tema transcende fronteiras, sendo aplicável a muitos outros países.”
O Prémio Especial deste ano foi concedido à jornalista croata Barbara Matejčić por “Matar pela foto”, uma investigação que revisita uma das imagens mais amplamente divulgadas da Guerra da Bósnia. Mais de três décadas após a fotografia ter sido tirada, a reportagem explorou as questões éticas e históricas que envolvem sua criação e publicação, revelando novas perspectivas sobre uma imagem definidora do conflito.
O que os jurados disseram: “Uma história fascinante que levanta muitas questões antes ignoradas. Um trabalho de reportagem realmente impressionante, muito impactante e raro. Uma reportagem fantástica com dramaturgia perfeita.”