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Inscrições abertas para o 5º Congresso dos Jornalistas

Já é possível inscrever-se para o 5.º Congresso dos Jornalistas, que irá ocorrer entre os dias 18 e 21 de janeiro de 2024 no Cinema São Jorge, em Lisboa

No ano das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, nos dias 18, 19, 20 e 21 de janeiro, realizar-se-á o 5º Congresso dos Jornalistas, no Cinema São Jorge, em Lisboa, com o lema “Jornalismo, Sempre”. A partir de hoje, é possível inscrever-se para participar no Congresso.

O congresso discutirá temas muito importantes para o jornalismo hoje, como a Ética, a Deontologia, a precariedade, a censura, a proximidade, o financiamento do jornalismo de qualidade e as novas fronteiras do jornalismo. O evento terá, igualmente, uma programação prévia, a acontecer entre os dias 15 e 17 de janeiro, exclusivamente dedicada à celebração dos 50 anos da Revolução dos Cravos. Os jornalistas e alunos de comunicação que se inscreverem até dia 17 de dezembro terão direito a um desconto de 50%.

Num ambiente acolhedor como uma casa, o restaurante “Clube de Jornalistas” é composto por diferentes ambientes, divididos em várias salas: a principal, onde foi originalmente a cozinha do palacete; o privado, forrado de azulejos dos séc. XVIII e XIX; a sala de snooker, salinha e jardim.

No verão, o atendimento é feito no jardim privado, uma agradável surpresa de tranquilidade no coração de Lisboa.

Tel. 21 397 7138
www.restauranteclubedejornalistas.com

Metade dos jornalistas portugueses têm elevados níveis de esgotamento

O relatório do Inquérito Nacional às Condições de Vida e de Trabalho dos Jornalistas em Portugal foi apresentado na Casa da Imprensa no passado dia 16 de outubro. Este estudo foi promovido pela API – Associação Portuguesa de Imprensa, pela Casa da Imprensa e pelo Sindicato dos Jornalistas (SJ) e contou com o apoio da Federação Europeia dos Jornalistas (FEJ)

Raquel Varela, coordenadora do estudo realizado por investigadores do Observatório para as Condições de Vida e Trabalho da Universidade Nova de Lisboa, refere a existência de ambientes de trabalho tóxicos e identifica uma profissão marcada por sobrecarga laboral, conflitos éticos, degradação da qualidade do trabalho, dificuldade de conciliação entre a vida profissional e a vida familiar, salários baixos e precariedade.

Como consequência, quase metade (48%) dos jornalistas portugueses tem níveis elevados de esgotamento e cerca de 18% apresentam valores de exaustão emocional que variam entre um nível muito elevado e extremamente elevado. Outro indicador preocupante revelado por este estudo é a média de filhos, de 1,04, abaixo da média nacional de 1,38 filhos por mulher.

O inquérito decorreu em abril e maio de 2022 e recolheu um total de 866 questionários, de 119 concelhos, de homens (52%) e mulheres (48%), jornalistas no ativo ou na reforma. Entre os ativos, com menos de 65 anos, a média de idades dos participantes foi de 44,8 anos. 

Números

  • 48% do universo inquirido apresenta níveis elevados de esgotamento;
  • 18% apresentam níveis de exaustão emocional que variam entre um nível muito elevado e extremamente elevado;
  • 38% apercebem-se de problemas mentais decorrentes do próprio trabalho jornalístico;
  • 93% dos respondentes ao inquérito declara ser alvo de assédio moral por parte das chefias e/ou patrões, sendo uma parte (7%) por colegas;
  • Cerca de 50% dos jornalistas que responderam ao inquérito trabalham mais de 40 horas por semana e aproximadamente metade trabalha mais de dez horas semanais em períodos noturnos;
  • Um terço dos respondentes considera que há um desequilíbrio ruinoso entre a vida pessoal e a profissional;
  • 52% são casados ou vivem em união de facto, 33% são solteiros, 14% são divorciados;
  • A média de filhos é de 1,04, abaixo da média nacional de 1,38 filhos por mulher;
  • 40% não têm filhos, 26% têm um filho, 27% tem dois filhos;
  • 36% dão conta de que o salário auferido condiciona na prática profissional;
  • 80% dos respondentes possui formação superior: 20% com bacharelato ou licenciatura pós-Bolonha; 34% com licenciatura pré-Bolonha, 11% com pós-graduação e especialização; 14% com mestrado integrado, 2% com doutoramento e 19% com ensino secundário. 7% estavam, na altura do inquérito, a estudar;
  • Sobre a formação complementar, 59% dizem não ter tido, 12% sim, por iniciativa da empresa, e 29% por iniciativa própria;
  • 54% estão inquietos com a precarização da produção jornalística atual;
  • 82% dizem que o ritmo de trabalho transformou as rotinas produtivas;
  • 49% admitem ter vivido situações de censura ou autocensura;
  • 52% foram bloqueados no acesso às fontes por autoridades do Estado, mercado ou sociedade civil;
  • 42% foram confrontados com problemas éticos por causa do trabalho;
  • 48% sentem-se inseguros com a sua situação precária;
  • 62% não encontram apoio na resolução de questões éticas das rotinas laborais;
  • 1225 euros é a remuneração média líquida dos jornalistas respondentes no ativo.

Aceda aqui ao estudo na íntegra.

Prémio Daphne Caruana Galizia para investigação sobre mortes no Mediterrâneo

A equipa vencedora do Prémio Daphne Caruana Galizia 2023, com jornalistas gregos, alemães e britânicos.

Clube de Jornalistas integra o júri internacional independente deste Prémio atribuído desde 2021 pelo Parlamento Europeu, que visa distinguir o jornalismo de investigação de excelência, honrando a memória da jornalista maltesa assassinada em 2017.

Um consórcio grego, alemão e britânico venceu a terceira edição do Prémio Daphne Caruana Galizia pela investigação relativa ao naufrágio do navio Adriana, que causou a morte a mais de 600 migrantes ao largo de Pilos, na Grécia.

A investigação conjunta do jornal de investigação grego Solomon, em colaboração com a empresa Forensis, a emissora pública alemã StrgF/ARD e o jornal britânico The Guardian revelou como o naufrágio de migrantes mais mortífero da história recente aconteceu em resultado das ações tomadas pela guarda costeira grega.

Roberta Metsola, Presidente do Parlamento Europeu, Pina Picierno, Vice-Presidente responsável pelo Prémio, e Juliane Hielscher, Presidente do Clube de Imprensa de Berlim e representante dos 28 membros europeus do Júri independente, participaram na cerimónia de entrega de prémios realizada a 16 de outubro na Sala de Imprensa do Parlamento Europeu, em Estrasburgo, que tem precisamente o nome de Daphne Caruana Galizia.

Roberta Metsola, durante a cerimónia de atribuição do Prémio, em Estrasburgo.

O Presidente Metsola afirmou: “Hoje, como todos os anos, honramos a memória de Daphne Caruana Galizia com um prémio que é um lembrete poderoso da sua luta pela verdade e pela justiça. Jornalistas de todo o mundo continuam a ser alvos apenas por fazerem o seu trabalho, e não podem ser silenciados. Este Parlamento está ao seu lado nesta batalha para salvaguardar a liberdade de imprensa e o pluralismo dos meios de comunicação social na Europa, e fora dela”.

Entre 3 de maio e 31 de julho de 2023, mais de 700 jornalistas submeteram as suas histórias para apreciação do júri, composto por profissionais independentes dos 27 países da UE (Patrícia Fonseca, do Clube de Jornalistas, voltou este ano a ser a representante portuguesa).

Dos quase 300 trabalhos a concurso foram encontrados 11 finalistas e, entre esses, foi votado o vencedor. Entre os finalistas esteve uma reportagem portuguesa: “Quando o Ódio Veste Farda”, de Pedro Coelho, Filipe Teles e João Venda, com Paulo Pena, Cláudia Marques Santos e Ricardo Cabral Fernandes.

Sobre o trabalho vencedor

A investigação analisou em profundidade os acontecimentos que rodearam o naufrágio do arrastão de pesca Adriana, em 14 de junho de 2022, a cerca de 50 milhas náuticas de Pylos, no sudoeste da Grécia, matando mais de 600 migrantes que tinham deixado a Líbia alguns dias antes.

Mais de 20 entrevistas foram feitas com sobreviventes e documentos judiciais e fontes da guarda costeira foram analisados. As conclusões detalham oportunidades de resgate perdidas e ofertas de assistência que foram ignoradas, enquanto os testemunhos dos sobreviventes indicam que foram as tentativas da guarda costeira grega de rebocar o arrastão que acabaram por causar o seu naufrágio.

A noite fatídica foi simulada pela Forensis usando modelos 3D interativos da traineira graças a dados do diário de bordo da guarda costeira e ao depoimento do capitão do navio, bem como de rotas de voo, dados de tráfego marítimo, imagens de satélite e vídeos feitos por navios próximos.

O consórcio responsável pela investigação foi formado pelos seguintes profissionais:

Salomon – Stavros Malichudis, Iliana Papangeli, Corina Petridi

Forensis – Stefanos Levidis, Christina Varvia, Georgia Skartadou, Andreas Makas, Ebrahem Farooqui, Dimitra Andritsou, Peter Polack, Eyal Weizman, Jasper Humpert, Miriam Rainer, Salma Barakat, Zac Ioannidis, Elizabeth Breiner

StrgF/ARD – Armin Ghassim, Sulaiman Tadmory, Timo Robben, Sebastian Heidelberger

The Guardian – Giorgos Christides, Katy Fallon, Lydia Emmanouilidou e Julian Busch

Sobre o Prémio

O Prémio Daphne Caruana foi lançado em dezembro de 2019 por decisão da Mesa do Parlamento Europeu, em homenagem a Daphne Caruana Galizia, jornalista de investigação anticorrupção e blogger maltesa que foi assassinada num atentado com um carro armadilhado em 2017.

O Prémio recompensa anualmente (no aniversário do assassinato de Daphne Caruana Galizia) o jornalismo de excelência, que promova ou defenda os princípios fundamentais da União Europeia, tais como a dignidade humana, a liberdade, a democracia, a igualdade, o Estado de direito e os direitos humanos.

Podem candidatar-se jornalistas profissionais ou equipas de jornalistas profissionais de qualquer nacionalidade, apresentando artigos de fundo publicados ou difundidos nos meios de comunicação social, sediados num dos 27 Estados-Membros da União Europeia. O objetivo é apoiar e destacar a importância do jornalismo profissional na salvaguarda da liberdade, da igualdade e da oportunidade.

O júri independente é composto por representantes da imprensa e da sociedade civil dos 27 Estados‑Membros, bem como das principais associações de jornalismo europeias.

O Prémio, no valor de 20 mil euros, pretende demonstrar o apoio do Parlamento Europeu ao jornalismo de investigação e a uma imprensa livre.

Em 2021, o Prémio de Jornalismo Daphne Caruana Galizia foi atribuído aos jornalistas do consórcio Forbidden Stories, responsável pelo Projeto Pegasus, um trabalho que envolveu mais de 80 jornalistas de 17 jornais em 10 países (entre eles o Guardian e o Washington Post), provando que os telefones de mais de 200 jornalistas, 14 chefes de Estado e dezenas de figuras políticas eram espiados por países e multinacionais usando tecnologia (spyware) da empresa israelita NSO.

Em 2022, foram distinguidos os jornalistas Clément Di Roma e Carol Valade pelo documentário “República Centro-Africana: a capacidade de influência russa”, uma coprodução Découpages/Arte GEIE, originalmente transmitido no programa Arte Reportage em francês, alemão e inglês. Foi também difundido no canal France 24 e publicado no Le Monde.

Quem era Daphne Caruana Galizia?

Daphne Caruana Galizia foi uma jornalista, blogger e ativista anticorrupção maltesa cujo trabalho jornalístico se centrava na corrupção, no branqueamento de capitais, na criminalidade organizada, na venda de cidadania e nas ligações do governo maltês aos Panama Papers. Depois de alguns episódios de assédio e ameaças, foi assassinada na explosão de um carro armadilhado em 16 de outubro de 2017. Os protestos relativos à investigação do seu homicídio pelas autoridades acabaram por levar à demissão do primeiro-ministro maltês, Joseph Muscat.

Media Capital desiste de comprar Cofina Media

A Media Capital é iderada por Mário Ferreira. Foto: DR

A Media Capital recuou na oferta de compra da Cofina Media, de acordo com o comunicado enviado à Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).

“Informamos que a Media Capital remeteu carta à Cofina SGPS através da qual comunicou que, tendo em conta que a Sociedade selecionou e aceitou a BAFO do MBO, tendo já sido, inclusivamente, celebrado o contrato de compra e venda de ações incluído na BAFO do MBO e cuja conclusão da transação está igualmente condicionada à aprovação em Assembleia Geral, considera que a BAFO da Media Capital deixou de ter validade.”

Nova direção do Diário de Notícias chumbada pelo Conselho de Redação

Os nomes propostos pela administração da Global Media para assumirem a direção do Diário de Notícias foram recusados pelo Conselho de Redação, tal como já tinha sucedido no mês passado na TSF (que tem agora como diretora Rosália Amorim, que deixou o cargo de direção no DN).

O Conselho de Redação do DN entendeu, “por maioria, não dar aval” a José Júdice para diretor e, “por unanimidade”, dar “um parecer negativo” a Ana Cáceres Monteiro para subdiretora. Contudo, o parecer não é vinculativo, e a administração decidiu manter a sua escolha.

“Cumpridos todos os procedimentos legais, o conselho de administração do Global Media Group, informa que, no próximo dia 13 de Novembro, iniciará as suas funções a nova equipa de direção do Diário de Notícias, e que será composta pelos jornalistas José Júdice, Leonídio Ferreira e Ana Cáceres Monteiro, que ocuparão, respetivamente, as funções de diretor, diretor-adjunto e subdiretora“, afirmou a empresa em comunicado.

“É propósito deste conselho de administração que a entrada em funções da nova direção marque o início de uma nova fase na vida do Diário de Notícias, e que passará necessariamente pelo reforço de investimento em recursos humanos, infraestruturas e inovação, fatores essenciais para o necessário crescimento e reafirmação de um jornal que é uma referência ímpar no panorama dos ‘media’ em Portugal – e cujo papel na sociedade portuguesa urge redignificar.”

A administração frisou ainda que esta será a “última e decisiva tentativa de salvar um projeto que se encontra insustentável devido ao rumo seguido na última década e em especial nos últimos anos”. Este ano a Global Media prevê acumular 2 milhões de euros de prejuízo.

A última vítima do Vale dos Caídos

Gonçalo Pereira Rosa Texto

Como um tropeção linguístico e cultural quase estragou a carreira de José Valente.

As luzes dos holofotes do Estádio da Luz começam a apagar-se depois de uma noite memorável. Os últimos redactores dos jornais acotovelam-se para saírem do curto espaço dedicado à imprensa. Alguns estão visivelmente tranquilos – as edições dos seus jornais só verão a luz do dia na tarde de quinta-feira, 25 de Fevereiro de 1965, pelo que a marcha do relógio ainda não se tornou opressiva. Em contrapartida, os representantes dos jornais matutinos e do trissemanário A Bola correm desenfreados para os telefones ou para os táxis que os conduzirão aos jornais. Para eles, cada segundo conta na dolorosa fornalha requerida por um jornal à beira do fecho.

Uma das regras tácitas do Jornalismo desportivo exige que, à ocorrência de um acontecimento retumbante, correspondam crónicas igualmente enérgicas e laudatórias. Hoje, foi um desses dias. Na primeira mão dos quartos-de-final da Taça dos Clubes Campeões Europeus, o Benfica esmagou o Real Madrid por 5-1.

Na tribuna de imprensa. Fernando Soromenho, redactor desportivo do Diário de Lisboa, magica já o título que dará à crónica do seu jornal: “Eusébio? Só fuzilado!”. Por A Bola, assiste ao jogo a fina-flor do jornal: Carlos Pinhão, Carlos Miranda, Aurélio Márcio e Mário Zambujal espremem o sumo do encontro e Alfredo Farinha anuncia: “Esmagado o ‘monstro sagrado’ do futebol europeu”. No Diário de Notícias (DN), Alberto Freitas, Zinck Negrão e Fernando Pires registam: “A realidade impôs-se ao Real”. O Século, seco e anónimo, marca o episódio com palavras áridas, sempre cioso do velho lema da casa de que os acontecimentos não se embelezam – registam-se como um estenógrafo.

O Mundo Desportivo (MD) tem uma desvantagem: a próxima edição só será publicada na sexta-feira, 24 horas depois da concorrência. Resta pouco para dizer. Como sempre, o jornal aposta num “documentário gráfico”, explorando a melhor impressão que as artes tipográficas da Empresa Nacional de Publicidade permitem. Mas é pouco.

José Valente, o chefe da redacção, matuta numa alegoria que possa reflectir a grandiosidade da vitória do clube de Lisboa sobre o rival madrileno. No dia do jogo, dir-se-ia que ninguém no jornal acreditara na possibilidade de goleada. O título de primeira página fora cauteloso em excesso: “Vencer ou cair dignamente: as únicas soluções compatíveis com o prestígio do Benfica”. Agora, terá de se redimir.

Na redacção, no edifício do DN no Marquês de Pombal, José Valente troca impressões com outros redactores. Enquanto Couto e Santos, talvez o jornalista português com melhores contactos na Europa do futebol, escreve uma crónica sobre as pretensões do Benfica na competição, outros camaradas conversam com Valente.

Eduardo Guita Júnior, especializado em ciclismo, torce o nariz à ideia que o chefe da redacção burila para assinalar a efeméride. “Sempre achei má ideia misturar desporto com política. Este episódio resume-se a uma escolha infeliz de palavras”, conta. Luís Alberto Ferreira, que durante quatro anos fora correspondente do jornal em Espanha, é consultado. “O Zé Valente quis saber se o título que ele escolhera seria melindroso”, lembra o redactor. “Disse-lhe que achava a escolha perigosa e, ainda por cima, factualmente errada. Os Caídos tinham sido muito mais os republicanos”.

José Valente, porém, não quer abdicar da ideia que lhe parece genial. Impõe a sua decisão. Para a posteridade, na edição do dia 26, o jornal titula: “O Vale dos Caídos mudou-se para Lisboa”. Mais à frente, tenta desenvolver a ideia com alguma precipitação: “Não foi realmente a batalha de Aljubarrota. Nem tão pouco a de Valverde, ou qualquer outra em que os espanhóis e os portugueses tivessem escrito páginas gloriosas da sua história. Mas foi bonito assistir-se à vitória do Benfica…”

Está prestes a desabar sobre o jornalista e o jornal um terramoto ibérico.

O Vale dos Caídos é um monumento incómodo na história espanhola. Pouco depois da conclusão da Guerra Civil, Franco decidiu criar um memorial aos soldados falangistas tombados durante o conflito. Entre 1940 e 1959, cerca de 30 mil combatentes foram ali sepultados, na serra de Guadarrama, com honras militares. O monumento foi erguido por trabalhadores contratados, mas também por prisioneiros republicanos forçados a erigir a obra como parte da penitência por combaterem as tropas falangistas. Dedicado à memória de Primo de Rivera, fundador da Falange Espanhola, e considerado a maior vala comum de Espanha, é uma edificação de significado incómodo para os espanhóis.

Em 1957, Franco emendou a orientação original, considerando que o Vale dos Caídos era um monumento à unificação do povo espanhol, mas, para a oposição à ditadura, foi sempre entendido como um marco de triunfalismo dos falangistas. A mera circunstância de Franco ali ter sido sepultado, nas imediações de muitas das suas vítimas, é suficiente para despertar discussões intermináveis sobre ideologia e monumentalidade.

Em 1965, data do incidente, o Vale dos Caídos não se discute em Espanha. Aceita-se com uma reverência às vítimas e uma certa prosápia dos vencedores… até um jornalista português o colocar em causa, despreocupadamente, numa crónica sobre futebol.

A PIDE ENTRA EM ACÇÃO

É difícil avaliar de onde parte a primeira contestação à estranha primeira página que oMD distribui pelas bancas. Nas zonas de fronteira terrestre ou aérea, o jornal capta a atenção dos leitores espanhóis. Mal se apercebe do problema diplomático que tem em mãos, a direcção da PIDE emite a ordem de serviço n.º 108/65, requerendo a apreensão imediata do jornal. Quanto menos exemplares circularem, menores serão as repercussões, mas, na psicologia de uma nação sob ditadura, um jornal interdito é como um fruto proibido.

Em poucas horas, os vários postos de fronteira comunicam com a direcção, dando conta do sucesso relativo das apreensões. Do Funchal, ao meio-dia do dia 27, informa-se: “PSP local ajuda apreensão último número jornal MD. Esta delegação está procedendo harmonia”. Em Faro, António Gonçalves Dias, chefe da subdelegação, dá conta do burburinho causado pelo jornal em Vila Real de Santo António “em face de título inserto na primeira página, alusiva ao monumento a Los Caídos”. O ruído não se limita ao lado português da fronteira: “Nesse mesmo dia, esteve naquela vila o comissário provincial da polícia espanhola de Huelva, que pretendia ler um desses jornais. Foi informado, pelo chefe daquele posto, que os mesmos haviam sido todos apreendidos pela PSP, fazendo-lhe ver que não havia qualquer carácter político no assunto”.

De Elvas, o chefe de brigada Luís Martins Ferreira faz saber que a secção local da PSP foi mobilizada para essa acção, mas, “nesta cidade, causou forte repulsa a epígrafe daquele jornal, na medida em que o responsável misturou a política com o desporto. O acontecimento tem sido bastante verberado, dadas as amistosas relações existentes e que um indivíduo sem escrúpulos tentou menosprezar”. Como um formigueiro, as secções da PIDE reportam para Lisboa, testemunhando a expansão nacional do MD. Parece evidente que não bastará recolher jornais. No documento de Elvas, um inspector com assinatura irreconhecível rabisca: “Visto. Convoque-se o autor do artigo para ser ouvido em declarações”.

A Censura não revê provas doMDe percebe-se o desprendimento dos censores: o cadastro do Secretariado Nacional de Informação sobre as infracções cometidas pelo jornal até esta data é curto – duas ocorrências, uma das quais arquivada sem multa. Do ponto de vista do controlo da informação, A Bola, alvo de suspensão de publicação durante um mês em 1946 por sátira a um pseudo-jogo internacional, e o Record, autor de algumas infracções administrativas, são mais problemáticos.

Consciência do regime, o Diário da Manhã do dia 27 procura amenizar o incidente diplomático, fazendo ver aos parceiros ibéricos que o episódio resultara da irresponsabilidade de um jornalista e não de uma campanha de fundo do governo. Em nota editorial sob o título “Não está certo”, o jornal de Barradas de Oliveira refere a “lamentável falta de respeito à expressão Vale dos Caídos”. Prossegue depois: “Acreditamos que não houve má intenção no facto, mas apenas um excesso de entusiasmo que levou a não se considerar devidamente a veneração religiosa que deve ter-se pelo santuário cristão e patriótico da grande nação irmã. Quando se fala em Vale dos Caídos, há um conjunto de coisas sérias que não podem deixar de impressionar, desde o sangue de um milhão de mortos sacrificados ao delírio de doutrinas malsãs que subvertiam a Espanha até à ideia de paz e de unidade que se firmou sobre o martírio e, por fim, a consagração num dos mais grandiosos monumentos do mundo inteiro”. O diário oficioso conclui: “Nós também rejubilámos com a vitória do Benfica. Mas, além de não ser de boas maneiras e espírito desportivo fazer graça com a derrota do adversário, é repugnante a falta de respeito pelas coisas sérias e sagradas”.

No Arquivo Histórico e Diplomático, não se encontraram até à data documentos que certifiquem a existência de um protesto formal da embaixada de Espanha ao Governo português, mas a irreverência de José Valente chega certamente ao público espanhol graças aos “esforços” de um jornalista de A Bola, correspondente do jornal espanhol Marca em Portugal. A quente, no dia 26, o correspondente Henrique Monteiro remete a notícia do dia por telefone para Madrid: “O jornal matutino Mundo Desportivo apareceu esta manhã com um título a toda a largura de página relativo ao encontro de futebol Benfica-Real Madrid, no qual se lia: ‘O Vale dos Caídos Mudou-se para Lisboa’”. O relato prossegue: “Este título foi qualificado como irreverente pela embaixada de Espanha na capital portuguesa, motivando uma resposta enérgica ao periódico”. Sem vontade de respigar a humilhação desportiva do clube espanhol, a Marca vê no incidente a oportunidade de canalizar a fúria dos leitores nacionalistas, puxando a nota do correspondente português para a primeira página.

Henrique Monteiro fornece mais informações aos leitores espanhóis. A Censura já ordenara a remoção dos exemplares dos pontos de venda e “o provável, neste momento, é que, além da sanção correspondente, sejam tomadas medidas para evitar semelhantes exageros, sem que se possa descartar outra sanção de maior gravidade”.

“Henrique Monteiro era um jornalista da velha guarda, juntamente com Ernesto Silva, Mário Macedo e outros”, conta Jorge Schnitzer que ainda conviveu com o veterano na apertada redacção de A Bola na Travessa da Queimada. “Com a entrada dos redactores mais jovens (como eu e Santos Neves), [o chefe da redacção] Vítor Santos negociou com eles a sua passagem à reforma. Era um senhor calvo, já de muita idade. Tinha um escarrador junto à sua secretária. Um nojo. No dia em que se reformou, fez-se uma festa na redacção para se deitar o escarrador para o lixo”.

EM APUROS

O episódio do Vale dos Caídos representa para Raul de Oliveira, o director do MD, o último combate de uma vida ao serviço do Jornalismo. Como uma sequência de dominós, cada peça derrubada implica a queda da seguinte até a avalancha de repercussões chegar a José Valente. No próprio dia 27, a Direcção dos Serviços de Censura comunica a Raul de Oliveira a decisão de suspensão do jornal. Com a indicação “urgentíssimo” no despacho, António Neves Martinha comunica que, “por determinação superior, foi ao jornal MD, da direcção de V.Ex.ª, aplicada a suspensão por um número, pelo que não poderá esse jornal publicar-se no seu próximo dia de saída, ou seja, na segunda-feira, dia 1 de Março próximo”. A interdição “fundamenta-se no facto de se ter inserido na primeira página deste último número expressões ofensivas para um país amigo”.

Neves Martinha assumira a direcção dos Serviços de Censura em Junho de 1961, depois de um longo tirocínio como subdirector. Como comenta o historiador Joaquim Cardoso Gomes, “Martinha, licenciado em Direito, monárquico na juventude, iniciou a carreira política como presidente da Câmara Municipal de Mafra entre 1936 e 1939, pertencendo activamente à União Nacional e à Legião Portuguesa. No pós-guerra, entrou para os quadros da Direcção-Geral da Administração Política e Civil, do Ministério do Interior, percorrendo entre 1941 e 1948 as secretarias dos governos civis de Vila Real, Setúbal e Santarém”. Nomeado para a Censura, “nunca pertenceu ao círculo político próximo de Caetano, o grupo da Choupana, pejorativamente designado na Legião como marcelinos, mas manteve uma relação de segunda linha desde os tempos de estudante em Lisboa que proporcionou um reencontro político que iria perdurar além da chamada de Caetano a Presidente do Conselho”.

Desconhece-se o teor das discussões na administração do jornal e o esforço que Raul de Oliveira terá feito para segurar o seu chefe da redacção, mas a empresa é categórica: um incidente desta magnitude, que coloca em causa a sobrevivência do jornal, tem de ser resolvido exemplarmente: José Valente será despedido e o desfecho noticiado em curta nota editorial no jornal seguinte, o do dia 5. Em 48 anos de ditadura, é o único caso de um chefe de redacção demitido por crime de imprensa.

A diplomacia, porém, exige respostas mais céleres. E o governo português sente necessidade de esclarecer o seu congénere espanhol do carácter extraordinário do incidente. Por isso, na edição de 28 de Fevereiro, a Marca publica uma carta de Luís Filipe de Oliveira e Castro, conselheiro de imprensa da embaixada portuguesa em Madrid. Nela, o diplomata regista: “A imprensa desportiva de Portugal não está sujeita a censura prévia, pelo que o MD publicou o título sem conhecimento de qualquer autoridade portuguesa”. Mais: “As autoridades portuguesas, mal tiveram conhecimento das infelizes expressões usadas por aquele periódico, ordenaram POR SUA LIVRE E ESPONTÂNEA INICIATIVA, apreender todos os exemplares ainda em venda, instruindo um processo contra o próprio jornal”.

Oliveira e Castro informa ainda os leitores da Marca de que a resposta portuguesa fora tão célere que o Governo espanhol não tomara sequer conhecimento oficial do problema, pelo que, ao contrário do que Henrique Monteiro se apressara a comunicar, “não houve qualquer protesto da embaixada de Espanha em Lisboa, pois a espontânea iniciativa das autoridades portuguesas antecipou-se e, na medida do possível, reparou o mal causado e ofereceu as desculpas devidas aos representantes de um país amigo”.

Está reparado o potencial incidente diplomático. Na cópia deste recorte no processo que a PIDE abrira para este caso, a anotação de um inspector clarifica que a polícia se desinteressa a partir do dia 10 de Março da abertura de um processo-crime contra o jornalista: “Por determinação do Exmº Sr. Director, que conhece pessoas que afiançam politicamente o José Valente, deixou de ser necessário tomar-lhe declaração”. O que se terá passado entretanto?

ESCRUTINADO DESDE JOVEM

José Agostinho dos Santos Valente foi, como muitas personalidades relevantes do desporto português, um casapiano. Ali molda o carácter e descobre a vocação para o futebol. Pratica a modalidade com alguma notoriedade, jogando a defesa-direito. Alentejano de Moura, regressa ao clube da terra e tenta a sorte durante cinco anos. Não se profissionaliza, pelo que volta à capital no início dos anos 1940. É jovem, precisa de se empregar. Candidata-se à função pública e cumpre o serviço militar, atingindo o posto de furriel. A partir de 1949, com 27 anos, “exerce funções no Grémio dos Armazenistas Exportadores de Retalhistas do Azeite, onde foi colega do grande jogador do Benfica, Guilherme Espírito Santo”, lembra Luís Alberto Ferreira. Para essa admissão, é fundamental a recomendação do seu cunhado, Gonçalo de Mesquitela, então presidente do Grémio e amigo de infância de Marcello Caetano.

Nas viagens de comboio entre a sede do Grémio e Paço de Arcos, onde reside até 1956, trava amizade com Carlos Pinhão, então ainda na redacção do MD. Será Pinhão a apresentá-lo a Raul de Oliveira, recomendando-o para o jornal. Ao longo da carreira, como outros camaradas, Valente concilia o trabalho com a carreira jornalística.

No MD, ascende velozmente. Escreve bem e com fluidez. Não tem o talento para a reportagem de Carlos Pinhão e Alfredo Farinha, os seus antecessores no jornal, mas é persistente e cria uma boa rede de contactos. Na edição de 13 de Fevereiro de 1957, o jornal classifica-o mesmo como “um dos críticos de futebol mais sabedores da nova geração”. O que o jornal não diz, mas até a PIDE sabe, é que José Valente é “um ferrenho simpatizante do S. L. Benfica”.

No MD, Valente forma com Couto e Santos, José Sampaio, Guita Júnior, Luís Alberto Ferreira, Adriano Peixoto, Vasco Santos, Frederico Cunha e José Ilharco uma equipa competente. Dá também oportunidades aos jovens que lhe batem à porta: Alexandre Pais, futuro director do Record e do 24 Horas, é um desses jovens a quem Valente permite colaborar no Jornalismo desportivo: na ocasião, como atleta-jornalista em 1964 nos Jogos da FISEC, em Espanha. O jornal, porém, parece estar no início de uma curva económica descendente, talvez em virtude do estranho processo que o leva a nomear Trabucho Alexandre em Dezembro de 1954 para a direcção (em co-direcção com Raul de Oliveira), revertendo depois a situação em Março de 1956. Nunca se esclarece totalmente a decisão, mas tudo indica que a convulsão custa ao jornal a saída de Carlos Pinhão e Alfredo Farinha, que marcarão indelevelmente as páginas do jornal rival.

A história da imprensa desportiva tem exacerbado o papel de A Bola, menosprezando os contributos dos concorrentes – na história como na vida, os sobreviventes ficam de pé para contar a história mais conveniente. Luís Alberto Ferreira, que colaborou com A Bola e o MD, tem opiniões firmes sobre o tema: “Os nossos enviados-especiais eram, por vezes, compelidos a ‘abastecer’, também, a secção desportiva do DN. O curioso é que nos jogos das quartas-feiras europeias, nós, em termos de reportagem, batíamos A Bola”, conta. “Após o jogo, no hotel, o enviado de A Bola transmitia umas notas sobre o jogo e a crónica era trabalhada por um numeroso piquete que procurava escrever ao estilo do enviado: crónica, cabinas, tudo. Nós, sim, trabalhávamos toda a madrugada, à máquina, no hotel, enquanto o colega de A Bola jantava – luxo a que não nos dávamos. Tragávamos umas sanduíches e a maratona findava ao amanhecer. Logo a seguir, íamos com a equipa para o aeroporto. E as nossas reportagens saíam na sexta-feira, devidamente arquitectadas e… escritas pelo próprio”.

Como nos velhos combates de pugilismo, os sobreviventes do MD gostam de contar as entrevistas exclusivas com Kopa e Di Stefano, com o presidente da FIFA ou com Eddy Merckx. Luís Alberto Ferreira vai até mais longe: “A maior, mais visceral, mais completa entrevista com Eusébio, fê-la o MD. Mas quem viveu do Eusébio foi A Bola. Até certo ponto, à custa do Eusébio”. São os pequenos troféus de uma guerra perdida com a extinção do jornal na década de 1980.


EPÍLOGO

A imprensa portuguesa não é autorizada a noticiar o caso para não lhe dar maior amplificação, mas ele é interiorizado em todas as redacções como aviso à navegação. A Bola, já escaldada pelo incidente de 1946, usa o episódio como lembrete dos riscos que um acto irreflectido pode causar a todos: “Lembro-me de o Vítor Santos dizer: ‘Isto não pode acontecer aqui. O jornal é o nosso ganha-pão. Num desportivo, não há lugar para política’”, conta Jorge Schnitzer. “Aliás, no meu início no jornal, explicaram-me as regras. Os árbitros são como juízes, são a autoridade. Não se questionam e são tratados por senhor. Até na ficha técnica.  Num acto de rebeldia, lembro-me que não respeitava essa regra. Esquecia-me de pôr o senhor. No princípio, o chefe emendava, mas não dizia nada… Depois, começou a sair sem isso. Américo Tomás também era sempre ‘o venerando chefe de Estado’ nas legendas de A Bola.

Na primeira edição após a suspensão, o MD introduz uma nota de 14 linhas sob o título Esclarecimento: “A Empresa Nacional de Publicidade e o director do MD lamentam e repudiam as expressões contidas numa crónica inserida neste jornal e que feriram a sensibilidade dos seus leitores. Ao autor da referida crónica, chefe da redacção do MD, único e total responsável pelo escrito que veio a público, foram aplicadas as sanções que o caso requeria”.

Em Espanha, curiosamente, a notícia já fora transmitida: o ABC do dia anterior noticiara: “Chefe da redacção do MDlisboeta destituído”. Há uma explicação lógica: a ANI, agência noticiosa, já transmitira para o mundo a notícia da destituição e da substituição de José Valente por Afonso Vaz Lacerda, então nas funções de secretário-geral da Federação Portuguesa de Futebol. Na mesma edição do dia 5, o MD publica duas despropositadas colunas sobre a amizade luso-espanhola. É uma declaração de apaziguamento que fecha o ritual de sacrifício imposto pela crónica do dia 26.

José Valente fica desamparado durante três meses, mas ainda tem amigos na redacção, sobretudo a cumplicidade alentejana e familiar com Urbano Rodrigues, velho chefe da redacção aposentado do DN, mas ainda com influência na empresa. A PIDE conclui o inquérito no final de Março, sem detectar malícia no caso do Vale dos Caídos, pelo que não há obstáculos à reintegração, desde que esta seja discreta.

José Valente é assim readmitido na Empresa Nacional de Publicidade e colocado no DN. “Descia um andar no edifício, subia na escada profissional”, registou mais tarde o seu obituário. Chefiou ali os serviços de Propaganda e Províncias até 1974.

Em contrapartida, no início de 1966, a administração da empresa conclui que Raul de Oliveira, alma e mentor do jornal desde a primeira hora, já não serve para o cargo e solicita ao Secretariado Nacional de Informação a validação do nome de José Moreira Boavida-Portugal, antigo chefe-adjunto da redacção de O Século, para director. “Raul de Oliveira era um bom repórter, tinha sagacidade para agarrar as coisas e escrevia bem. Era muito culto. Dentro do desporto, era dos que tinham mais categoria. Era uma pessoa muito sensível e muito afável com toda a gente e estimado por todos”, conta Guita Júnior. “Já para o fim da vida, mandaram-no para casa, reformaram-no. E foi mau para ele. Ele nascera naquele jornal, ali deveria morrer. Pouco depois da Volta a Portugal de 1965, deram-lhe essa novidade. Chegaram a estar os dois directores e ele percebeu o que ia acontecer. Foi substituído por Boavida-Portugal, um homem que tinha pouco que ver com o desporto. Não simpatizei com ele. Era um tipo fechado”.

Amigo de Fernando Pires, consciência crítica do DN durante 50 anos, José Valente mantém-se no jornal mesmo após a Revolução. Ascende a sub-chefe de redacção. Alice Vieira ainda trabalhou com ele: “Como jornalista, era fraco, mas simpático com os colegas. Ainda foi meu chefe”, na secção de Informação Geral, mais tarde transformada em Sociedade, conta a escritora.

Luís Alberto Ferreira colaborou com frequência com José Valente e recorda um homem “de grande carácter, irrepreensível. Como chefe da redacção, tinha gestos bonitos: certa vez, quando me desembaracei bem de uma missão em Zagreb, ele deu-se ao trabalho de ir ao aeroporto aguardar-me à chegada e transmitir calorosos cumprimentos pelo êxito profissional. Ele era assim”.

José Valente sofre, entretanto, um drama terrível, com a perda de um filho no Rio de Janeiro, vítima de um crime violento. Decide antecipar a reforma em 1985. Morre em Lisboa no dia 11 de Março de 1990 e é sepultado na sua Moura natal. Foi, de certa forma, a última vítima do Vale dos Caídos espanhol.

Vencedores dos Prémios GAZETA

Foto: Rui Ochôa / Presidência da República

O Júri dos Prémios Gazeta, os mais prestigiados do Jornalismo português, iniciativa do Clube de Jornalistas (CJ) que conta com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, apreciou este ano quase 90 trabalhos relativos a 2022. A elevada qualidade das candidaturas, prova da dinâmica que, resistindo à crise, o Jornalismo conserva, tornou complexa a escolha.

Após análise, o júri deliberou anunciar a 3 de outubro de 2023 a atribuição dos seguintes galardões:

  • Prémio Gazeta de Mérito – Ana Sousa Dias, detentora de uma sólida carreira jornalística, que deixou a sua marca em diversos meios. Estreou-se no Vida Rural, passou por diversos jornais – Diário de Notíciaso DiárioExpressoPúblico e Jornal de Notícias – e pela Agência Lusa. O programa de entrevistas “Por outro lado”, distinguido com o Gazeta em 2003, representou a sua estreia em televisão. Assinou, também, trabalhos na Antena 1 e Antena 2, RCP e TSF. Atualmente, exerce funções de provedora do telespetador da RTP.
  • Gazeta de Televisão – Amélia Moura Ramos, graças à reportagem “A roupa dos brancos mortos”, emitida no Jornal da Noite da SIC de 12 de maio de 2022. O trabalho, levado a cabo no Gana e em Portugal, revela o circuito do vestuário que depositamos para caridade. A transação de roupa que o Ocidente deita fora tem muito para desvendar. Paulo Cepa (repórter de imagem), Luís Gonçalves (editor de imagem), Pedro Morais (grafismo), Diana Matias e Ângela Rosa (produção editorial) integraram a equipa de reportagem.
  • Gazeta de Imprensa – Miguel Carvalho e Pedro Caldeira Rodriguesex aequo. O primeiro assinou na revista Visão uma corajosa reportagem – “O braço armado do Chega”, publicada em 17 de novembro de 2022 – sobre a militância de profissionais da PSP e da GNR no partido, legalmente proibida. Pedro Caldeira Rodrigues, da Agência Lusa, é autor de um conjunto de reportagens sob o título genérico “Chove em Kiev”, sendo as primeiras anteriores à invasão russa, fundamentais para contextualizar a situação e compreender a natureza do conflito.
  • Gazeta de Rádio – Paula Borges, por “Na arte de resistir – Somos Moçambique”, reportagem emitida pela RDP África a 2 e 4 de novembro de 2022, centrada na identificação das soluções para a recuperação de zonas afetadas por catástrofes naturais e conflitos. Da equipa, que visitou várias regiões do país, fizeram também parte o jornalista moçambicano Orfeu de Sá Lisboa e o sonorizador Paulo Cavaco.
  • Gazeta de Multimédia – Inês Rocha, autora de “Quis saber se o RGPD funciona. Então, fiz ‘download’ da minha vida”, trabalho publicado pela Rádio Renascença em 19 de abril de 2022. “Onde andam os nossos dados? Que dados as empresas guardam sobre nós? Até onde nos leva a nossa pegada digital?” – eis as questões suscitadas na investigação, que implicou o contacto com mais de 70 entidades.
  • Gazeta de Fotografia – João Porfírio, do Observador, pelo conjunto de imagens enquadradas na reportagem “Ucrânia – Os primeiros 75 dias de guerra”, divulgadas entre 24 de fevereiro e 13 de junho de 2022, acompanhando a par e passo a fase inicial do conflito bélico com a Rússia, ainda em curso.
  • Gazeta Revelação – Daniel Dias, autor do texto da reportagem “Há caçadores de água da neblina que querem criar novas florestas em Portugal”, publicado a 10 de novembro de 2022 no Público, sobre um projeto ibérico centrado na recuperação de territórios afetados por incêndios, que está a ser desenvolvido em Carregal do Sal. A fotografia e o vídeo são da autoria de Tiago Bernardo Lopes.
  • Gazeta de Imprensa Regional, atribuído pela Direção do Clube de Jornalistas – Mensageiro de Bragança, semanário diocesano regionalista fundado em 1 de janeiro de 1940, que se institui como veículo de ligação à comunidade transmontana residente na cidade, noutras zonas do país e no estrangeiro. 

O Júri dos Prémios Gazeta 2022 teve a seguinte composição: Eugénio Alves (CJ), que presidiu, Cesário Borga (CJ), Eva Henningsen (Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal), Elizabete Caramelo (professora universitária), Fernando Cascais (professor universitário e formador do Cenjor), Jorge Leitão Ramos (crítico de cinema e televisão), José Rebelo (professor emérito do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa), Inácio Ludgero (fotojornalista), Dina Soares (Jornalista) e Paulo Martins (jornalista e professor universitário).

Os Prémios Gazeta serão entregues pelo Presidente da República, como é tradição desde 1984. A cerimónia irá realizar-se este ano a 27 de novembro.

Jaime de Saint Maurice (1932-2023)

O jornalista Jaime de Saint Maurice morreu esta manhã em Lisboa, aos 91 anos. O velório irá decorrer no sábado, dia 23, a partir das 18 horas, na Igreja São João de Deus, em Lisboa. No domingo, dia 24, haverá uma cerimónia religiosa pelas 10h30, seguindo depois para o cemitério dos Olivais.

Jaime de Saint Maurice nasceu em Novo Redondo, Angola, em 1932. Viveu e trabalhou em Luanda onde iniciou a sua carreira no jornal ”Angola Desportiva”. Seria depois convidado em 1966 para a revista ilustrada “Notícia“ onde se notabilizou como redator e repórter, tendo a certa altura assumido as funções de chefe de redação. 

Deixou Luanda em 1971 para trabalhar em Lisboa no jornal ”A Capital”, onde permaneceu até 1980. A sua paixão era a reportagem e foi enviado especial por diversas vezes para a cobertura de acontecimentos internacionais, como foi o caso do conflito na Irlanda do Norte.

O interesse pela televisão levou-o a ingressar na RTP em 1973 e aí, como jornalista, desempenhou as funções de repórter e de chefia ao longo de muitos anos.

A sua filha, Anabela de Saint Maurice, herdou do pai a paixão pelo jornalismo, dedicando-se sobretudo à realização de documentários na RTP, onde trabalha desde 1986.

Entrevista | Elisa Ferreira

A Comissária Europeia Elisa Ferreira, durante a sua entrevista no Clube de Jornalistas 25_40_50, em Lisboa, 15 de setembro de 2023. FOTO: ANTÓNIO COTRIM/LUSA

A Adesão da Ucrânia à União Europeu constituiria uma “mudança radical” na Europa e na repartição de fundos estruturais, afirmou esta sexta-feira, 15 de setembro, a Comissária Europeia para a Política de Coesão e Reformas, Elisa Ferreira, em entrevista ao “Clube de Jornalistas 25_40_50“.

Esta é uma iniciativa que se realiza no âmbito dos 50 anos das comemorações do 25 de Abril e dos 40 anos do Clube de Jornalistas, em parceria com a Agência Lusa e a Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa, com o patrocínio da Associação Mutualista Montepio.

Depois da primeira entrevista de António Costa após a sua reeleição, em abril de 2022, seguiu-se uma conversa com Tiago Rodrigues, encenador e antigo diretor do Teatro Nacional D. Maria II, naquela que foi a sua primeira entrevista como diretor do Festival de Avignon.

Agora, Elisa Ferreira deu a primeira entrevista de um alto responsável europeu depois do Estado da União. Tal como nas edições anteriores, as perguntas ficam a cargo de quatro gerações de jornalistas: Francisco Sarsfield Cabral (jornalista freelancer), Helena Garrido (jornalista freelancer), Paulo Barriga (jornalista freelancer), Joana Nunes Mateus (Expresso) e Maria de Deus Rodrigues (Lusa), com Ricardo Costa (SIC) como pivot da emissão.

Neste entrevista, Elisa Ferreira lembrou que as mesmas preocupações foram levantadas em relação à adesão da Polónia, em 2004, mas que “as coisas foram-se resolvendo”. A comissária sublinhou que a necessária reconstrução da Ucrânia não é um problema, mas antes “uma grande oportunidade para as empresas que se queiram posicionar”.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen defendeu, no discurso sobre o estado da União Europeia, uma reforma que permita a entrada da Ucrânia e de mais dois Estados na União Europeia, passando para 30 membros. “O futuro da Ucrânia está na nossa União”, afirmou no debate realizado no Parlamento Europeu.

A adesão à União Europeia da Ucrânia tem sido pedida repetidamente pelo Presidente daquele país, Volodymyr Zelensky, desde o início da guerra lançada pela Rússia em fevereiro do ano passado. O país já iniciou estando uma reforma legislativa e de combate à corrupção como primeiro passo para o pedido formal.

No entanto, o impacto dessa adesão tem levado alguns especialistas a alertar para as dificuldades de um país que está a passar por uma guerra e também para a possibilidade de o centro de atenção passar para o leste europeu. Com uma população a ronda os 40 milhões de habitantes, a Ucrânia tornar-se-ia no quinto maior membro da UE e o maior em área terrestre.

Para a comissária europeia, não se pode discutir apenas a questão dos fundos estruturais, é preciso “olhar para o conjunto”.

Problema de Portugal é falta de “qualidade de vida”

Elisa Ferreira falou também dos baixos salários em Portugal, que levam muitas pessoas, sobretudo jovens, a emigrar, reforçando que o problema em Portugal é “a falta de qualidade de vida”.

“A questão é saber se os salários permitem qualidade de vida. E percebemos que isso não acontece. Gerações qualificadas não conseguem encontrar empregos e esquemas de vida que garantam um mínimo de qualidade”, disse.

Para a comissária, a solução passa por olhar para a sociedade como um todo e por abordar, de facto, a questão da organização das pessoas no território. “A lógica muito típica que é dizer que ‘a culpa é do Governo’, mas há que olhar também para as empresas e a sociedade”.

Utilização em outros meios
A Agência Lusa disponibiliza a todos os seus clientes o vídeo das entrevistas, além do tratamento jornalístico que considerar adequado publicar, e esse material poderá ser utilizado livremente por todos os órgãos de Comunicação Social. O vídeo integral de cada uma destas entrevistas também estará disponível no YouTube e o áudio pode ser ouvido e descarregado no canal de Podcast do Clube de Jornalistas.

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