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Vencedores do European Press Prize revelados em Lisboa são “prova de coragem” do jornalismo que resiste

Os finalistas do European Press Prize 2026, na Gulbenkian, em Lisboa. Foto: EPP

A cerimónia de entrega do European Press Prize 2026 realizou-se a 3 de junho na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Os seis vencedores, selecionados entre mais de 800 candidaturas de 44 países, são “a prova da persistência, da coragem e do compromisso com o serviço público que definem o melhor jornalismo atual”, considerou a presidente do júri, Natalie Nougayrède.

Os trabalhos selecionados, acrescentou, são “uma montra inspiradora de reportagens tenazes e com espírito cívico”, frisando que este prémio “celebra jornalistas que mergulham fundo em realidades complexas e nos ajudam a conectar os pontos num momento de choques e transformações vertiginosas”.

Este é um dos prémios internacionais mais prestigiados e celebra a excelência do jornalismo europeu. É possível graças a diversas fundações e organizações que se empenham em incentivar o jornalismo independente e de qualidade na Europa: Stichting Democratie en Media, Stichting Veronica, Jyllands-Posten Fonden, Politiken Fonden, The Scott Trust, Robert Bosch Foundation, iMEdD – Incubator for Media Education and Development, The Irish Times Trust e Media Development Investment Fund.

Cada vencedor recebeu 10 000 euros para financiar projetos pessoais que contribuam para o enriquecimento do panorama mediático europeu.

A cerimónia de entrega do European Press Prize foi este ano realizada em Lisboa, na Gulbenkian. Foto: EPP

Prémio de Reportagem de Destaque

“O que as feridas nos dizem”

O Prémio de Reportagem de Destaque foi concedido aos jornalistas holandeses Maud Effting e Willem Feenstra, do jornal De Volkskrant, pela reportagem “O que as feridas nos dizem”. Baseada em depoimentos e documentos de profissionais médicos internacionais que atuam em Gaza, a investigação examinou evidências coletadas em hospitais e clínicas durante o conflito em curso.

O que os jurados disseram: “Um trabalho impressionante que combina a coleta de dados com retratos profundamente humanos dos médicos. A caracterização desses médicos como as ‘últimas testemunhas oculares internacionais’ é significativa. Um projeto muito rigoroso, especialmente considerando o contexto em que o acesso é quase impossível.”

O segundo lugar nesta categoria foi para a reportagem ” Morrendo por ouro: Quem matou os mineiros de Buffelsfontein?”, escrita por Liam Taylor para a revista 1843 da revista The Economist , que discutiu o impacto mortal do bloqueio de centenas de mineiros no subsolo da África do Sul.

Prêmio de Inovação

“Sinal ou cancro? O algoritmo que erra em um em cada três melanomas e exclui pacientes com pele escura”

O Prémio de Inovação foi concedido à CIVIO, de Espanha (Ángela Bernardo, María Álvarez del Vayo, Carmen Torrecillas, Adrián Maqueda), pela sua investigação sobre um sistema de deteção de cancro da pele baseado em inteligência artificial utilizado na saúde pública. A reportagem revelou sérias preocupações quanto à precisão do algoritmo e à falta de transparência na sua implementação, destacando questões mais amplas sobre responsabilidade à medida que a inteligência artificial se torna cada vez mais presente nos serviços públicos.

O que os jurados disseram:  “Trabalho excepcional. Um ótimo exemplo de investigação jornalística de dados com metodologia clara. A Civio é conhecida pelas suas investigações de transparência algorítmica e, desta vez, não decepciona. A utilidade de suas reportagens também é indiscutível.”

O segundo lugar no Prémio de Inovação foi para a investigação ” Como as empresas evitam a inclusão – e até economizam dinheiro fazendo isso”, de Kristina Kobl, Nikolai Prodöhl, Lisa Kreutzer, Emilia Garbsch, Natalie Sablowski, Sabrina Winter, Sabrina Ebitsch e Theodor Ahrens, para a revista austríaca andererseits, o jornal alemão Süddeutsche Zeitung e a plataforma FragDenStaat .

Prémio de Jornalismo Investigativo

“A conspiração do Irmão D – Expondo um esquema internacional de abuso infantil que deixou crianças em África expostas a um predador por décadas”

O jornalista irlandês Michael O’Farrell recebeu o Prémio de Reportagem Investigativa por “A Conspiração do Irmão D”, uma investigação de uma década sobre o encobrimento de denúncias de abuso infantil e as falhas institucionais que permitiram que o abuso continuasse por anos.

O que os jurados disseram:  “Um trabalho fantástico de um veículo de comunicação local com enorme impacto, que é o culminar de um longo esforço de investigação. Este foco constante e preciso numa questão importante é o que gera mudanças e é muito louvável.

O segundo lugar foi para a reportagem ” DNA à venda? A história não contada do escândalo dos testes de triagem neonatal na Grécia”, de Christoforos Kasdaglis e Despina Papageorgiou para a Reporters United e Efimerida ton Syntakton .

Prémio de Jornalismo sobre Migração

“Crianças desacompanhadas dormem no chão em turnos nos ‘Campos Modelo’ da Grécia. A UE está ciente.”

Prémio de Jornalismo sobre Migração reconheceu uma investigação transfronteiriça realizada por jornalistas da Grécia e da Suíça: Solomon (Lydia Emmanouilidou, Corina Petridi, Luděk Stavinoha, Stavros Malichudis, May Bulman, Iliana Papangeli, Galatia Iatraki), Republik (Lorenz Naegeli, Lukas Haeuptli) e WAV Recherchekollektiv (Osama Abdullah) investigaram as condições enfrentadas por crianças desacompanhadas em campos de refugiados nas ilhas gregas. Com insistentes pedidos de acesso à informação, documentos internos e extensa reportagem de campo, a investigação documentou a superlotação, o atendimento inadequado e as significativas discrepâncias entre os compromissos políticos e a realidade vivida.

O que os juízes disseram: “Uma investigação bem executada que se tornará uma importante prova ao estudarmos este período. O relatório institucional é robusto, devastador em seus relatos e revelador para a compreensão de tantas maneiras pelas quais crianças solicitantes de asilo podem ser negligenciadas.”

O segundo lugar nesta categoria foi para o quebra-cabeça de Hamshika, criado por Hamshika Krishnamoorthy, Hannah Kirmes-Daly, Leon Spring e Benja Zehr da Al Jazeera, que narra como uma mulher do Sri Lanka, que buscava asilo no Reino Unido, acabou no Ruanda.

Prémio de Discurso Público

“De novo não!” 

A alemã Kerstin Kohlenberg recebeu o Prémio de Discurso Público por “De novo, não!”, uma análise dos desenvolvimentos políticos na Alemanha sob a perspectiva da sua experiência como repórter nos Estados Unidos.

O que os jurados disseram: “Uma obra muito bem pesquisada que realmente nos faz refletir. A autora tem um olhar maravilhoso para os detalhes ao descrever os personagens, e o tema transcende fronteiras, sendo aplicável a muitos outros países.”

Nesta categoria, houve dois segundos lugares: Anne Grietje Franssen, do NRC holandês, pelo artigo ” Posso lamentar o aborto que escolhi?”, e Filip Struhárik, do Dennik N eslovaco, pelo artigo “Infeliz, solitário e incapaz de falar sobre isso: por que os homens estão perdendo amigos”.

Prémio Especial

“Matar pela foto” 

O Prémio Especial deste ano foi concedido à jornalista croata Barbara Matejčić por “Matar pela foto”, uma investigação que revisita uma das imagens mais amplamente divulgadas da Guerra da Bósnia. Mais de três décadas após a fotografia ter sido tirada, a reportagem explorou as questões éticas e históricas que envolvem sua criação e publicação, revelando novas perspectivas sobre uma imagem definidora do conflito.

O que os jurados disseram: “Uma história fascinante que levanta muitas questões antes ignoradas. Um trabalho de reportagem realmente impressionante, muito impactante e raro. Uma reportagem fantástica com dramaturgia perfeita.”

Scott Pelley foi despedido do “60 Minutes” pela CBS

Scott Pelley. Foto: CBS

A CBS News rescindiu o contrato com Scott Pelley, figura marcante do programa “60 Minutes”.

O jornalista confirmou a saída numa publicação no Instagram, na quarta-feira, 3 de junho, afirmando que o novo dono da CBS o tinha “descartado” para “ganhar um momento de simpatia com o governo Trump”.

Nas últimas semanas tornou-se público que Scott Pelley acusava a diretora editorial da CBS News, Bari Weiss, de estar a “assassinar” o “60 Minutes”.

Foi o suficiente para o despedirem alegando “justa causa”. Bari Weiss disse que a relação de confiança dentro da redação já não era recuperável.

A saída do histórico jornalista surge num momento de grande tensão interna e de reestruturação na divisão de informação da CBS. Scott Pelley junta-se a mais de uma dezena de jornalistas que já deixaram desde o início do ano o programa jornalístico que é o mais antigo em horário nobre, nos EUA.

Cerimónia de entrega do European Press Prize realiza-se na Gulbenkian esta quarta-feira

Vencedores serão conhecidos a 3 de junho, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e ao longo de todo o dia haverá debates, apresentação de projetos e momentos para a partilha de experiências entre jornalistas de toda a Europa.

A cerimónia do European Press Prize realiza-se no este ano em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian, juntando jornalistas, editores e representantes de dezenas de organizações ligadas aos media na celebração da qualidade, independência e relevância do jornalismo na Europa.

Com cinco categorias, cada um dos vencedores recebe 10 mil euros, para serem investidos num projeto pessoal que, por sua vez, possa enriquecer a prática jornalística. O júri, composto por alguns dos mais prestigiados jornalistas europeus, tem também o poder de atribuir um prémio especial.

Depois de Itália, em 2025, Portugal foi este ano o país escolhido para acolher a cerimónia daqueles que são considerados os mais importantes prémios de jornalismo na Europa.

Consciência coletiva: uma defesa da perspetiva humana” é o tema proposta para reflexão em Lisboa, convidando à partilha de experiências entre profissionais e o debate sobre os desafios contemporâneos enfrentados pelo setor da comunicação social.

O programa tem início às 11h45 com uma apresentação ao vivo do projeto Forever Lobbying”, conduzida pelos jornalistas Stéphane Horel e Raphaëlle Aubert, coordenadores da investigação publicada pelo jornal francês Le Monde.

Seguir-se-á um painel dedicado às colaborações jornalísticas, moderado por Lydia Emmanouilidou, com participação de profissionais envolvidos em diferentes modelos de cooperação editorial e investigação transnacional. Entre os oradores encontram-se Elisa Simantke, Lisa Kreutzer e Sofia Cherici.

Às 12h55 será apresentado o estudo de caso “Algorithms x human creativity”, conduzido pela equipa da organização espanhola Civio, com intervenção de María Álvarez del Vayo, Carmen Torrecillas e Adrián Maqueda. A sessão abordará a articulação entre inteligência artificial, rigor jornalístico e narrativa visual.

Segue-se ainda um painel sobre a cobertura jornalística do sofrimento humano e dos conflitos contemporâneos, com intervenções de vários jornalistas europeus. Participam nesta sessão Nidžara Ahmetašević e Andrew Connelly, sobre a rota migratória minada na Bósnia; a jornalista portuguesa Ana Patrícia Silva, vencedora do European Press Prize em 2024, com um trabalho centrado nas mulheres em estabelecimentos prisionais portugueses; e ainda Bastian Berbner, Maud Efting e Willem Feenstra, que irão refletir sobre os desafios da cobertura jornalística da guerra em Gaza.

A segunda parte do programa realiza-se entre as 17h45 e as 23h00, com a cerimónia oficial de entrega do European Press Prize 2026. Além do anúncio dos finalistas distinguidos e vencedores, haverá momentos de convívio e networking entre profissionais.

A sessão contará também com uma performance jornalística ao vivo, promovida pelo jornal “Mensagem de Lisboa”, moderada por Vânia Maia.

European Press Prize | Categorias

Prémio de Reportagem de Investigação – Por descobrir e revelar factos, expondo notícias desconhecidas ao público;

Prémio Distinção / Reportagem – Por reportagens excecionais, contando uma história da melhor forma possível;

Prémio de Discurso Público – Por uma interpretação textual notável do mundo em que vivemos (anteriormente designado por Prémio de Opinião);

Prémio de Inovação – Por desafiar os limites do jornalismo;

Prémio de Jornalismo Migratório – Por um exemplo aclamado de jornalismo sobre migrantes.

Prémio para a liberdade de imprensa homenageia fotógrafos e operadores de câmara em Gaza

A câmara fotográfica da jornalista palestiniana Mariam Dagga, morta num ataque de Israel contra o local onde se encontravam vários jornalistas, no hospital Al-Nasser, em Gaza. Créditos: Reuters

A distinção com a “Caneta de Ouro” foi anunciada pela Associação Mundial de Editores de Notícias (WAN-IFRA) e será entregue às três principais agências de notícias internacionais (AFP, AP e Reuters) que têm profissionais contratados na Faixa de Gaza.

A “Caneta de Ouro” para a liberdade de imprensa será concedida na segunda-feira, 1 de junho, aos fotógrafos e operadores de câmara das três principais agências de notícias internacionais (AFP, AP e Reuters) que operam na Faixa de Gaza para documentar a guerra, correndo grandes riscos pessoais, anunciou na quinta-feira a Associação Mundial de Editores de Notícias (WAN-IFRA).

O prémio será entregue em Marselha a representantes destas três agências noticiosas, incluindo o fotógrafo Mohammed Abed, que trabalhou em Gaza para a Agence France-Presse até abril de 2024, antes de se transferir para a sucursal do Cairo.

O fotojornalista Mohammed Abed, em Gaza. Foto: SAID KHATIB

“Há mais de dois anos e meio que os jornalistas em Gaza testemunham a morte, a destruição e o sofrimento humano com uma intensidade sem precedentes”, explica a WAN-IFRA, que realiza o seu 77.º Congresso Mundial de Imprensa na próxima semana, organizado em parceria com a CMA Media, o braço mediático da empresa de navegação CMA CGM.

“São tanto vítimas do conflito como cronistas de uma guerra que eclodiu – e prossegue – à sua volta”, acrescentou a organização. O prémio reconhece também os seus colegas feridos ou mortos em Gaza enquanto realizavam o seu trabalho de testemunhar a guerra travada pelo exército israelita após os ataques do Hamas a 7 de outubro de 2023.

De acordo com uma avaliação dos Repórteres Sem Fronteiras, no final de 2025 mais de 220 jornalistas tinham sido mortos pelo exército israelita em Gaza desde outubro de 2023

A WAN-IFRA frisou ainda que o Estado de Israel bloqueou o acesso livre de jornalistas estrangeiros à Faixa de Gaza desde o início da guerra, alegando razões de segurança.

O martírio dos jornalistas em Gaza foi o tema de capa da edição nº88 da revista do Clube de Jornalistas.

Daniel Reis foi o homenageado na 5.ª Conversa de Jornalistas: “Mais cinco anos e acaba o papel em Portugal”

Foto: Corrêa dos Santos

A precariedade, a perda de recursos nas redações e os riscos para a qualidade da informação foram temas dominantes na 5.ª sessão das “Conversas de Jornalistas”, mas os convidados sublinharam que continua a haver “muito bom jornalismo” em Portugal.

Daniel Reis foi o homenageado a 27 de maio, concretizando o mote do Clube nos seus 40 anos: “Lançar ideias, premiar os melhores, juntar jornalistas de todas as gerações”.

Juntaram-se-lhe Ricardo AlexandreVânia Maia, numa conversa com moderação de Maria Flor Pedrosotransmitida em direto no YouTube com o apoio do Cenjor, e disponível em podcast para utilização por qualquer órgão de comunicação social, com a identificação do Clube de Jornalistas.

Daniel Reis é uma figura marcante do jornalismo português, com um percurso que atravessa várias gerações, redações e momentos decisivos da história recente do país. Com mais de meio século de profissão, construiu uma carreira sólida assente na reportagem, no rigor documental e no compromisso com os valores fundamentais do jornalismo.

Passou por várias redações, entre as quais o Diário de Lisboa, o Norte Desportivo, o Comércio do Porto e o Expresso, onde consolidou a sua especialização na cobertura política. Foi também presidente do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas, tendo participado na redação do Código Deontológico aprovado em 1993, um marco na ética profissional em Portugal.

Ricardo Alexandre é jornalista especializado em política internacional, com um percurso consolidado na rádio e na televisão. Com formação em Sociologia e doutoramento em Ciência Política, iniciou a carreira no contexto das rádios locais e integrou posteriormente a rádio pública, desenvolvendo‑se como repórter e editor.

Foi editor e diretor adjunto em diferentes órgãos, destacando‑se o seu trabalho na TSF, onde tem desempenhado funções de editor internacional. Ao longo da carreira, acompanhou grandes temas da política global e contribuiu para a análise de assuntos internacionais em rádio e televisão. Paralelamente, dedica‑se ao ensino do jornalismo e da ciência política, sendo reconhecido pela reflexão crítica sobre os media e pela defesa da qualidade informativa.

Vânia Maia é jornalista e investigadora, formada em Ciência Política, com pós‑graduação em cultura contemporânea e jornalismo colaborativo. Iniciou a carreira após uma formação no Cenjor e trabalhou na revista Visão, onde desenvolveu grande parte do seu percurso, tendo sido distinguida com vários prémios, incluindo o reconhecimento de “quase Gazeta Revelação”… foi premiada mas não recebeu o prémio do Clube de Jornalistas por ter mais anos de carteira profissional do que o regulamento permitia.

Atualmente trabalha como freelancer, colaborando com diferentes meios e projetos jornalísticos. Paralelamente, leciona jornalismo e desenvolve investigação académica na área do jornalismo de investigação, sendo uma voz ativa na reflexão sobre condições de trabalho, modelos de negócio e o futuro da profissão.

A crise estrutural do jornalismo em Portugal, marcada por baixos salários, falta de recursos e mudanças no consumo de informação, dominou o debate. Mas, apesar das dificuldades, a ideia transversal foi clara: a profissão mantém relevância e qualidade, ainda que sob pressão.

Um dos temas consensuais foi a degradação das condições de trabalho ao longo das últimas décadas. “Entrava‑se na profissão há 30 anos praticamente com o mesmo valor que agora”, alertou Ricardo Alexandre, lembrando que os rendimentos iniciais pouco evoluíram.

A jornalista Vânia Maia confirmou essa realidade, descrevendo a dificuldade de permanecer na profissão. “Sem apoio financeiro familiar, provavelmente não me teria aguentado na profissão”.

A escassez de recursos humanos nas redações foi apontada como uma das principais causas da perda de qualidade e diversidade na cobertura. “Temos uma enorme oferta informativa, mas não temos tempo para tudo”, sublinhou Ricardo Alexandre. “Ter responsabilidades editoriais hoje é uma dor de cabeça – não há meios e não há gente.”

Outro ponto de preocupação é a distância crescente entre os media e parte da sociedade. Segundo Vânia Maia, as redações tornaram‑se menos representativas. Ricardo Alexandre reforçou a ideia: “As redações não refletem a sociedade, continuam muito homogéneas.” Este afastamento, defenderam, contribui para a desconfiança do público e para a dificuldade em captar novas audiências.

A crise do modelo de negócio dos media foi outro dos eixos centrais da discussão. O baixo número de leitores dispostos a pagar por informação condiciona escolhas editoriais, reduzindo a capacidade de investir em investigação.

“A investigação distingue os jornais e tem elevado valor social”, defendeu Vânia Maia, alertando que esse tipo de jornalismo exige tempo e recursos. Ao mesmo tempo, cresce o peso de conteúdos mais baratos de produzir.

Os participantes apontaram também a proliferação de comentadores como um sintoma das dificuldades estruturais do setor. “É mais barato ter comentadores do que produzir um programa”, criticou Daniel Reis. A pressão das audiências, especialmente na televisão, contribui para o fenómeno. “As audiências são medidas minuto a minuto e isso condiciona decisões editoriais”, lembrou Ricardo Alexandre. Este contexto leva a um “mimetismo” entre meios, com conteúdos semelhantes a dominar o espaço informativo.

Apesar das críticas, houve também uma forte defesa dos princípios fundamentais da profissão. Para Daniel Reis, o rigor permanece central. “O jornalista deve ter uma forte ligação às provas documentais e ao arquivo.” Já Vânia Maia destacou o papel cívico e até emocional da informação: “Ler uma grande reportagem é um prazer… é melhor que um romance, porque é real.” E deixou um apelo ao público: “É importante ter uma dieta noticiosa consciente.”

Apesar das fragilidades do setor, os jornalistas mostraram confiança nas novas gerações. “Há muita gente nova a trabalhar muito bem e com enorme dedicação”, sublinhou Ricardo Alexandre. Para Vânia Maia, a qualidade continua a surpreender: “Todas as semanas sou surpreendida com trabalhos de elevadíssima qualidade.”

O futuro da imprensa em papel foi igualmente questionado. Daniel Reis arriscou uma previsão, considerando que bastarão “mais cinco anos e acaba o papel em Portugal”. Ainda assim, a transição digital é vista como inevitável, embora desafiante do ponto de vista económico e editorial.

No final, ficou a ideia de um jornalismo em transição, pressionado por fatores económicos, tecnológicos e sociais, mas ainda essencial ao funcionamento da democracia. Como sintetizou Vânia Maia: “É o melhor ofício do mundo, ainda que por vezes o pior emprego do mundo.”

Exposição de Inácio Ludgero na Fundação Mário Soares e Maria Barroso

Aprovação da Constituição. Aspecto geral do hemiciclo. Foto: Inácio Ludgero

A Fundação Mário Soares e Maria Barroso acolhe, entre 27 de maio e 10 de julho, a exposição “Nos 50 Anos da Aprovação da Constituição”, com fotografias do fotojornalista Inácio Ludgero.

A inauguração terá lugar no dia 27 de maio, às 18h30. A exposição reúne 15 fotografias captadas por Inácio Ludgero ao serviço dos jornais  A Capital e O Jornal, durante os trabalhos da Assembleia Constituinte.

Na ocasião, será igualmente celebrado o protocolo com a Fundação para o depósito do arquivo dos mais de 50 anos de carreira de Inácio Ludgero, constituído por uma extensa coleção fotográfica ilustrando as várias décadas da sua carreira profissional como fotojornalista, nomeadamente a sua colaboração com A Capital, O Jornal e a revista Visão.

Uma parte substancial do arquivo documenta os acontecimentos do dia 25 de Abril e do 1º de Maio de 1974, assim como o período revolucionário, designadamente as movimentações militares do 11 de Março e do 25 de Novembro de 1975. Ilustra a efervescência política e social da altura, captando aspetos da Reforma Agrária, greves, manifestações, plenários, comícios políticos e ataques a núcleos partidários.

Entre os políticos portugueses retratados destacam-se Adelino Amaro da Costa, Adelino da Palma Carlos, Álvaro Cunhal, António de Almeida Santos, António Barreto, António de Spínola, Francisco da Costa Gomes, Diogo Freitas do Amaral, Hermínio da Palma Inácio, José Manuel Tengarrinha, José Pinheiro de Azevedo, Hermínio da Palma Inácio, Mário Soares e Otelo Saraiva de Carvalho.

Integra fotografias do processo de descolonização, em particular da chegada de retornados das ex-colónias e do regresso do contingente militar português que combatia nesses territórios, da Cimeira do Alvor e da independência da Guiné-Bissau. Inclui, igualmente, imagens que retratam a chegada a Lisboa de refugiados da guerra civil de Angola e da invasão de Timor-Leste pela Indonésia.

O arquivo integra também uma coleção de imprensa, com todos os números d’O Jornal, documentos de identificação, correspondência, folhetos de exposições, exemplares de cursos de fotografia, fichas de inscrição ao Prémio Gazeta e materiais utilizados nos vários livros que publicou.

Este acervo encontra-se disponível para consulta pública na plataforma digital Casa Comum.

Daniel Reis é o homenageado de maio nas “Conversas de Jornalistas”

No dia 27 de maio, entre as 18h00 e as 20h00, Daniel Reis conversa no Clube de Jornalistas com Ricardo Alexandre e Vânia Maia (moderação de Maria Flor Pedroso).

Daniel Reis é o homenageado de maio nas “Conversas de Jornalistas”, iniciativa que concretiza o mote do Clube nos seus 40 anos: “Lançar ideias, premiar os melhores, juntar jornalistas de todas as gerações”.

Na quarta-feira, dia 27 de maio, entre as 18h00 e as 20h00, na sede do Clube de Jornalistas, em Lisboa, estaremos à conversa com Daniel Reis, uma vida profissional intensa, sobretudo na imprensa, do Diário Popular ao Norte Desportivo, da Rádio&TV ao Nô Pintcha, do Diário de Lisboa ao Expresso, e a quem devemos a aprovação do Código Deontológico que rege a profissão. Vamos conhecer melhor este “quase advogado” que acabou a vida jornalística ativa como exímio repórter parlamentar – aliás, em 1989 recebeu o Prémio de Reportagem Parlamentar, então atribuído pela Assembleia da República em colaboração com o Clube de Jornalistas.

Juntam-se-lhe Ricardo Alexandre, da Antena 1 à TSF, com o mundo inteiro como objeto de estudo e de reportagem, e Vânia Maia, hoje freelancer, que começou nas rádios locais e trabalhou mais de uma dezena de anos na Visão.

Uma conversa a três, com moderação de Maria Flor Pedroso, que será gravada e transformada em podcast, ficando depois disponível para utilização por qualquer órgão de comunicação social, com a identificação do Clube de Jornalistas.

Ao longo de duas horas, haverá espaço para falar sobre o trabalho de cada um, identificando o que foi determinante nas suas vidas profissionais, e como vêem o jornalismo que se faz hoje na imprensa escrita e falada. Onde estamos a falhar, porque estamos a chegar a menos pessoas? Quando e como é que perdemos a nossa credibilidade? Ou a nossa dignidade? Porque tem sido perdido o controlo editorial para o poder político e económico? Quais as boas experiências e práticas que estão a acontecer e que nos entusiasmam? Este é um ponto de partida possível para percebermos o que está nas nossas mãos melhorar, exigir e não desistir.

Em janeiro, o homenageado nas “Conversas de Jornalistas” foi José Carlos de Vasconcelos, com a participação de Pedro Coelho e Tatiana Felício. Em fevereiro, o foco esteve em Eugénio Alves, à conversa com Clara de Sousa e João Porfírio. Em março, Fernanda Mestrinho conversou com Miguel Carvalho e Sofia Craveiro. Em abril, ouvimos Cesário Borga, José Manuel Rosendo e Ana Tulha. Todas as Conversas podem ser ouvidas no podcast do Clube de Jornalistas, no Spotify.

Trabalhadores da Lusa fazem greve a 20 de maio

A greve de 24 horas ocorre no dia em que vários projetos de lei e resoluções de alteração aos estatutos da Lusa são discutidos no Parlamento, “no que constitui um momento determinante para um debate público sobre a agência, a sua importância e o seu futuro“, escrevem os trabalhadores num comunicado que a seguir se transcreve:

“A detenção pelo Estado português da totalidade do capital da Lusa, concluída em novembro de 2025, constituiu uma oportunidade única para reforçar o papel de referência da agência enquanto prestador de serviço público de jornalismo e para assegurar mecanismos estáveis e duradouros de proteção da independência editorial, em respeito pelo direito nacional e europeu.

Pelo contrário, o novo modelo de governação da empresa, definido pelo Governo nos novos estatutos, publicados em 28 de janeiro de 2026, não trouxe a necessária estabilidade para o livre exercício da atividade jornalística numa casa que é a única agência de notícias do país e a maior em língua portuguesa no mundo.

Os novos estatutos estão feridos de ilegalidade e agravam os riscos de ingerência externa, desde logo, de influência política, de governamentalização e de controlo sobre a linha editorial, colocando em causa princípios constitucionais de liberdade de informação e direitos fundamentais dos jornalistas.

Ao longo dos últimos meses, os órgãos representativos dos trabalhadores da Lusa apresentaram exposições sobre o assunto ao Provedor de Justiça, à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e à Comissão Europeia, e transmitiram estas preocupações ao Parlamento dando conta da urgência da revisão deste enquadramento estatutário.

A discussão de projetos de lei e projetos de resolução apresentados por partidos de diferentes quadrantes políticos, esta quarta-feira no plenário da Assembleia da República, é determinante para a Lusa e o seu futuro.

A gravidade do teor dos estatutos – um mero documento societário sem força de diploma legislativo – exige que o processo legislativo prossiga para a comissão parlamentar de especialidade.

Apelamos aos Deputados nesse sentido, para que a Lusa seja objeto de uma análise mais aprofundada, transparente e participada pelo Parlamento e até pela sociedade civil, dada a sua importância para o jornalismo e para a democracia.

A agência Lusa é composta por mais de 280 trabalhadores, na maioria jornalistas, em toda a geografia nacional e, atualmente, com delegações nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, República Democrática de Timor Leste e Região Administrativa Especial de Macau, Bruxelas, Madrid e correspondentes em vários pontos do mundo.

A Lusa, que em 2026 comemora 40 anos, é garante de informação rigorosa, plural e livre – e assim precisa de continuar.”

Estão abertas as candidaturas para a 41.ª edição dos Prémios Gazeta

A 41ª. edição dos Prémios Gazeta, os mais prestigiados do jornalismo português, que o Clube de Jornalistas atribui desde a sua fundação, em 1984, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, têm candidaturas abertas entre o dia 19 de maio e 20 de junho.

Os trabalhos a concurso têm obrigatoriamente de ter sido publicados durante o ano de 2025 e assinados por jornalistas com carteira profissional válida.

Os Gazeta são atribuídos em oito categorias: Prémio Gazeta de Mérito; Prémio Gazeta de Imprensa; Prémio Gazeta de Televisão; Prémio Gazeta de Rádio; Prémio Gazeta de Fotografia; Prémio Gazeta Multimédia; Prémio Gazeta Revelação e Prémio Gazeta de Imprensa Regional.

Os candidatos devem preencher a Ficha de Inscrição, de acordo com o Regulamento.

Entrega dos Prémios Jornalismo em Saúde marcada para 17 de junho

A cerimónia de entrega dos Prémios APIFARMA | Clube de Jornalistas – Jornalismo em Saúde vai realizar-se no dia 17 de junho, às 15h00, na sede do Clube de Jornalistas, em Lisboa.

Esta é a 10.ª edição de uma iniciativa que tem valorizado o papel dos profissionais de comunicação social na promoção de informação credível, acessível e relevante para os cidadãos, contribuindo para a literacia em saúde.

Nesta edição, o júri premiou peças jornalísticas em oito categorias, dedicadas a temas como dislexia, percurso dos imigrantes no SNS, saúde feminina ou imunidade.

Para assistir à cerimónia, inscreva-se aqui.

Premiados da 10.ª edição do Prémio Jornalismo em Saúde – 2025

• Grande Prémio: Sofia Neves e equipa (Cátia Mendonça, Gabriela Pedro, Francisco Lopes, Manuel Roberto e Daniel Rocha), pelo trabalho “Dislexia. Aprender com um cérebro que nos prega partidas”, publicado no jornal Público;

• Prémio Carreira: Helena Neves Marques que se dedica há anos ao jornalismo em saúde. É jornalista da Agência Lusa;

 Imprensa: Raquel Albuquerque e Sofia Miguel Rosa, pelo trabalho “Mortalidade chega a ser o dobro entre concelhos”, publicado no jornal Expresso;

• Televisão: Paula Martinho da Silva e equipa (David Araújo e Maria Queirós), pelo trabalho “A Aldeia Onde o Esquecimento Pode Viver”, transmitido na RTP (Linha da Frente);

• Rádio: Fátima Valente e André Tenente, pelo trabalho “Ataxia de Friedriech – À Espera do Medicamento Que Já Existe”, emitido na TSF;

 Digital: Ana Sousa e Cláudia Alves Mendes e equipa (José Guerreiro e Nelson Santos), pelo trabalho “Às vezes é preciso “convencer” de que se está doente: a língua como “barreira” na “jornada” dos imigrantes no SNS”, divulgado na TSF;

• Prémio Universitário Revelação: Liliana da Silva Costa e Sofia Martins, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, pelo trabalho “Dossiê da Saúde Feminina”;

 Prémio Temático | Saúde e Bem-Estar: Sónia Calheiros, pelo trabalho “Imunidade: Como reforçar o nosso exército”, publicado na revista Visão.

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